Em vez de se entregar às lamentações e às dificuldades, elas resolveram ir à luta. Após anos longe da escola, enfrentaram o desafio de buscar novos conhecimentos e ganharam, além da perspectiva de uma vida melhor, uma grande dose de amor próprio. Solange, Patrícia, Ana Paula, Valdira e Marli hoje são futuras profissionais e mulheres renovadas.
''Antes eu só ficava em casa, não tinha ânimo para nada. Agora não vejo a hora de vir para o curso. Já estou até conseguindo me expressar melhor'', conta Ana Paula José Chaves Garcia, 27 anos, que nos últimos oito anos trabalhou na própria residência, vendendo roupas, cosméticos e jóias em casa. ''Chegou uma hora que eu achei que tinha que fazer alguma coisa por mim'', conta, ainda tímida.
Sem saber direito o que esperar do curso de camareira ofertado pelo Programa Senac Gratuidade, Ana Paula matriculou-se por curiosidade, pela vontade de conhecer mais pessoas. Descobriu que o curso oferece muito mais que isso. ''Aprendi muita coisa. Hoje sonho em trabalhar em um grande hotel e continuar estudando, talvez fazer também um curso de recepcionista'', diz a mãe de três filhos.
Quem também anda com a autoestima renovada são as irmãs Valdira Bahia, de 45 anos, e Marli Bahia de Souza, de 38. Valdira, que trabalha como auxiliar de serviços gerais, conta que até uns meses atrás não tinha coragem nem vontade de fazer nada. Hoje sente-se feliz por estar fazendo algo por ela mesma.
''Tento me cuidar mais, arrumar o cabelo, pintar as unhas, usar pelo menos batom. Antes eu não ligava para nada disso. É a primeira vez na vida que tenho alguma perspectiva de melhorar. É uma sensação ótima, quando chego em casa me sinto realizada'', diz ela, que surpreendeu a mãe e o filho adolescente com a sua perseverança. ''Não faltei um dia'', orgulha-se.
A quase sempre quieta Marli se ilumina ao falar das possibilidades que hoje vê para sua vida. Seu último trabalho foi como atendente de supermercado, em 2007. Antes, tinha ficado seis anos sem conseguir emprego de carteira assinada, o que voltou a acontecer nos últimos três anos. ''Estou até pensando em voltar a estudar para terminar o ensino fundamental e fazer outros cursos na área de hotelaria, que estou gostando muito.''
Patrícia Clemente, de 32 anos, também prestes a concluir o curso oferecido pelo Senac, já sonha com um futuro de mais reconhecimento profissional. ''Trabalho como zeladora e dali só posso passar para a portaria. Já como camareira, posso chegar a supervisora, governanta, gerente operacional e até gerente geral. É só ter força de vontade e querer'', argumenta Patrícia, que sempre trabalhou sozinha e agora está aprendendo a encarar atividades em equipe. ''Melhorei a forma de me comunicar e até a minha postura'', comemora.
Depois de um ano e dois meses frequentando o Curso de Costura Industrial do Clube das Mães Unidas, entidade beneficente sediada no Jardim Interlagos (Zona Leste), a diarista Solange Cristina Ribeiro Correa, de 37 anos, vive a expectativa de reativar a carteira de trabalho, que já estava até esquecida em casa, depois de quase 20 anos sem uso.
''Meu último emprego com carteira assinada foi quando eu tinha uns 19 anos. Na época trabalhei um ano e pouco como auxiliar de cozinha e cerca de um mês como costureira. Depois disso, só consegui emprego como diarista'', conta Solange, que estudou até a 4 série do ensino fundamental e é uma das mais novas contratadas da ZKF Confecções.
A alegria de Solange é visível. ''Eu sempre tive vontade de fazer um curso de costura, mas achava que não conseguiria por não ter estudo. Sempre foi o meu sonho. Até chorei quando soube que iria ser empregada'', confessa. Emocionada e sem esconder uma grande expectativa, ela conta que voltou a acreditar no seu potencial e, com o salário melhor, pensa em terminar as obras de sua casa, que estão paradas.
A professora de Solange no curso, Nadir Pisconti, conta que as mudanças nas mulheres que se capacitam e conseguem colocação no mercado de trabalho são visíveis. ''A gente percebe até pelo jeito de se comportarem, se vestirem. Eu me sinto feliz em ver a transformação. É uma oportunidade de elas se tornarem independentes'', argumenta Nadir.

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