Um curso de cabeleireiro, manicure e maquiagem tem mudado as perspectivas de moradores da periferia de Londrina. Ministrado gratuitamente pela cabeleireira Ceci Chang, o curso é destinado a mulheres e homens que não têm condições de pagar para aprender uma profissão. ''Eu já fui muito pobre, comecei a trabalhar aos 7 anos, e consegui tudo o que eu tenho graças ao salão que mantenho há 15 anos no Centro Comercial. Então resolvi que era hora de ajudar outras pessoas também a conquistar a sua independência'', justifica Ceci, lembrando-se da época em que chegava a cortar 40 cabelos por dia, a R$ 2,00, para ajudar o marido, que é chinês, a terminar a faculdade de medicina. Hoje, é ela quem faz faculdade, de Direito.
No total, a cabeleireira tem 82 estudantes cadastrados. As aulas atualmente acontecem às terças-feiras no Jardim João Turquino e às quartas no Santiago, ambos na Zona Oeste da cidade. Às quintas-feiras, as duas turmas se reúnem em seu salão para mais aulas. O curso de cabeleireiro dura seis meses, com uma carga horária total de 460 horas, o de manicure, 60 horas e o de maquiagem tem 15 horas de duração. Ceci ressalta que faz o controle de presenças e reprova quem falta mais do que três vezes. Além disso, Ceci também repassa aos alunos noções de higiene pessoal, atendimento, controle de caixa e outros conhecimentos importantes para administrar um salão. ''Ao final do curso, dou certificado, e a pessoa pode abrir seu próprio negócio. Tenho ex-alunas que já estão trabalhando em alguns salões'', comemora.
Para ela, o fato de estar formando potenciais concorrentes em sua profissão não pode ser visto como um entrave. ''Não existe concorrência para o bom profissional. Pelo contrário, tem espaço para todo mundo. Quem gosta do meu jeito volta. Foi assim que eu consegui me manter e ganhar dinheiro durante todos esses anos''.
Ceci começou a dar aulas no ano passado, e já formou duas turmas, no Jardim Santa Fé e no Campos Verdes, de manicure e maquiagem. As aulas são improvisadas de acordo com a disponibilidade de cada bairro. No João Turquino, o grupo pegou emprestada a sala de uma casa inabitada, que ficou pequena para as cerca de 20 mulheres que se revezam com tesouras, secadores, batons e esmaltes. ''Eu sou costureira, mas quero abrir um salão em casa para ajudar meu filho, que está desempregado'', explica Ayako Sato Noma, de 67 anos. Ayako mora no conjunto Ernani Moura Lima (Zona Leste), e, junto com o filho, atravessou a cidade para poder fazer o curso. ''É que não temos condições de pagar um curso particular. Mas vai ser um pouco difícil, porque foi a primeira vez em que ele pegou uma tesoura'', conta.
Também pensando nos dois filhos, Daniela Ortiz dos Santos fez o curso de manicure para poder trabalhar em casa. ''Para a gente que mora aqui é tão difícil conseguir alguma coisa, que tem que aproveitar. Tem que fazer um esforço, porque é a oportunidade de um dinheiro a mais'', avalia.
Já a jovem Janiele de Oliveira Santos, 18 anos, viu na profissão de cabeleireira a perspectiva de um futuro melhor. ''Até agora eu não tinha idéia de trabalhar, no começo nem levava a sério o curso. Agora estou gostando, quero me profissionalizar. Estudei até a sétima série, então quero estudar à noite e aprender tudo sobre essa profissão durante o dia'', revela.
O curso fez bem até para Madalena Ferreira Moreira, 25 anos, que se voluntariou para que os alunos pudessem cuidar do seu cabelo. Madalena ganhou uma escova gratuita e gostou. ''Gosto do meu cabelo normal, mas gosto dele liso também. De vez em quando faz bem mudar.''

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