Nesta época em que as mulheres ficam cada vez mais fora de casa, manter o ‘‘lar doce lar’’, não é fácil. Mesmo com toda a tecnologia do microondas e facilidades das lavanderias e da fast-food, a empregada doméstica está se tornando cada vez mais indispensável. Só em Londrina, o Sindicato das Domésticas estima que há 15 mil mulheres trabalhando na área.
Paulo Wolfgang‘Acreditar que qualquer pessoa pode fazer o serviço doméstico é um erro’
(Zuleika Toledo Bexara, professora da Escola Fundamental)
No município, o salário pago a estas profissionais varia de R$ 130,00 a R$ 350,00. A média salarial da categoria é de R$ 180,00. Outro indicador de que a profissão está ganhando espaço é o aparecimento de cursos de capacitação para empregadas domésticas. Comuns em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, os cursos para empregadas já começam a aparecer também em Londrina.
No mês passado, o centro de cultura da Escola Fundamental, em Londrina, promoveu um curso de três dias voltado para as empregadas domésticas. Nas aulas, as participantes aprenderam a organizar as tarefas domésticas, a montar um cronograma para a faxina e a usar ‘‘truques’’ para cuidar bem da casa. Durante o curso, as alunas aprenderam ainda noções de nutrição, armazenamento de alimentos e prevenção de acidentes domésticos.
‘‘Ser empregada doméstica é difícil. Além de competência no serviço, a profissão exige sensibilidade e boa vontade nas relações com os membros da família’’, diz Zuleika Toledo Bexara, coordenadora do 1º Grau da Escola Fundamental. Ela é a professora do curso para domésticas.
César AugustoProfissionalA empregada doméstica Tereza Czervinski em plena atividade: profissão ainda enfrenta preconceito
A idéia de realizar o curso foi da coordenadora do Centro, Encarnação Duarte. ‘‘Acreditar que qualquer pessoa pode fazer o serviço doméstico é um erro. Essas profissionais também precisam de capacitação e não podem mais depender apenas das orientações que receberam de suas mães’’, comenta. ‘‘Na nossa casa fazemos as coisas da melhor forma possível. Mas a doméstica tem de ser profissional e dominar o conhecimento necessário para desempenhar seu trabalho da forma correta.’’
Milton Dória‘Gosto do meu trabalho. Quando a gente dá respeito, é respeitada também’
(Erotildes Gonçalves dos Santos, doméstica há 32 anos)A primeira edição do curso não despertou muito interesse por parte das domésticas da Cidade. Organizado para ter cerca de 20 alunas, o curso foi realizado com 7 participantes, Do total, 5 empregadas domésticas foram encaminhadas pelas patroas e duas noivas se interessaram em aprender como organizar melhor suas casas, depois de casadas. Mesmo assim, as inscrições para o novo curso estão abertas e o início das aulas está na dependência de a escola fechar uma nova turma de alunos.
O Sindicato das Empregadas Domésticas de Londrina e região elogia a iniciativa da Escola Fundamental em criar o curso. A presidente da entidade, Lídia Delfino, 56 anos, acredita que as aulas só melhoram o mercado de trabalho para as domésticas. Ela lamenta que Londrina não tenha um sindicato patronal ativo. ‘‘As duas entidades poderiam trabalhar juntas para criar um número maior de cursos voltados para a categoria’’, sugere.
Há seis anos liderando a entidade, Lídia Delfino diz que o mercado das empregadas domésticas está sendo invadido por pessoas que não são da área. ‘‘A comunidade acredita que qualquer um pode cuidar de uma casa. Mas não é verdade. É preciso ser profissional e gostar do serviço.’’ A presidente do sindicato atribui os constantes desentendimentos entre empregadas e patroas à falta de compreensão sobre o que significa trabalhar como empregada doméstica.
Mario CesarCarteira assinadaA presidente do Sindicato das Domésticas, Lídia Delfino: ‘‘É preciso ter orgulho do trabalho’‘‘Esses cursos poderiam ensinar também os direitos e responsabilidades do patrão e do empregado’’, afirma Lídia. Segundo ela, a categoria ainda não compreendeu que junto com os direitos trabalhistas existem também as obrigações. Entre os deveres, segundo a sindicalista, estão ‘‘realizar o serviço contratado bem feito, tratar as pessoas com respeito, cumprir a jornada de trabalho acordada, faltar apenas com justificativa e não abandonar o serviço’’.
Lídia Delfino deixa claro, porém, que não apenas as empregadas estão precisando de um curso. ‘‘Muitas patroas não respeitam os limites da profissão nem do ser humano com quem estão lidando.’’
O preconceito contra o trabalho de doméstica é um dos principais obstáculos que a entidade enfrenta. Segundo a presidente da entidade, a atividade ainda é visto como um ‘‘subtrabalho’’ e, não raramente, como humilhante. ‘‘A discriminação nasce entre as pessoas que exercem a profissão. Muitas não gostam nem de ser registradas como domésticas porque se sentem diminuídas, têm vergonha.’’
A presidente do sindicato afirma: enquanto as profissionais da área não tiverem orgulho do seu trabalho, e a profissão não for encarada como qualquer outra, as conquistas da categoria estarão limitadas. E dificilmente haverá paz entre patroas e empregadas.
‘‘Perdi muita amiga porque não tenho vergonha de dizer que trabalho como empregada doméstica. É um trabalho como qualquer outro’’, afirma Tereza Czervinski, 26 anos, que fez o curso da Escola Fundamental. Há um ano e meio, bem cedo, ela sai diariamente de Jataizinho (Norte do Estado), onde mora com os três filhos pequenos, para trabalhar em Londrina. ‘‘Se depender de mim, não saio tão cedo deste emprego. Além do salário decente, conto com o apoio da dona da casa, que sempre me ajuda.’’
Para Tereza, o preconceito das amigas é a única tristeza da profissão. ‘‘Muitas trabalham em escritórios e lojas. O interessante é que ganham menos do que eu.’’ Ela conta que quando foi até a casa de Bernardete Vicentini de Azevedo, em um bairro nobre da cidade, nunca havia trabalhado como doméstica. ‘‘Não sabia nada, mas decidi aprender. Tive sorte porque a dona Bernardete também se dispôs a me ensinar. Hoje eu sei até cozinhar bem’’, afirma.
Bernardete Azevedo também está contente. Depois de muitas tentativas, diz que acertou. ‘‘O que mais valorizo na Tereza é sua preocupação com todos da família. Ela percebe quando estou precisando de ajuda e sabe deixar o serviço da casa sempre que, por algum motivo, as crianças chamam por ela’’, diz.
Mas o emprego doméstico às vezes provoca conflitos e mágoas. Ana Maria Lyra Paixão, 32 anos, não quer nem pensar em contratar uma empregada novamente. Recentemente ela teve uma experiência negativa com uma pessoa que trabalhou apenas três meses em sua casa. ‘‘A gente deposita muita confiança e depois fica desiludida com as atitudes. Enquanto puder, não vou mais contratar ninguém.’’
Ela tem dois filhos pequenos, e contratou uma empregada em setembro do ano passado, porque pretendia voltar a trabalhar em janeiro. Em dezembro, época de férias, ela decidiu antecipar as férias da empregada.
‘‘Durante as férias tive vários problemas de saúde e decidi esperar para voltar a trabalhar’’, conta. Em janeiro, quando voltou, demitiu a empregada. ‘‘Paguei tudo, inclusive as férias, e ficou faltando apenas o 13º, que ela viria buscar depois. Mas ela foi direto para o sindicato onde fez um cálculo cobrando inclusive o que eu já havia pago.’’
Ela garante que nunca se negou a pagar os direitos da funcionária e até a indicou para uma amiga. ‘‘Ela veio até minha casa, me destratou e ameaçou. Não esperava uma reação assim por parte dela’’, conta. Como Ana Maria Paixão não tinha recibos dos pagamentos, teve que negociar um acordo no sindicato.
Erotildes Gonçalves dos Santos, 47 anos, é uma ajudante do lar que nunca teve problemas com patroas. A exemplo da colega Tereza Czervinski, a doméstica conta que está satisfeita com a sua profissão. Ela trabalha desde os 15 anos. ‘‘Na época, foi um choque. Eu vim de uma cidade pequena e tive de me habituar a coisas que nunca tinha visto. Mas gosto do meu trabalho.’’
Ela está há 8 anos na mesma casa e diz que a sua história se confunde com a história das famílias que a empregaram. ‘‘Minha maior alegria foi quando meus patrões aceitaram ser padrinhos dos meus filhos. Minha maior tristeza foi acompanhar o sofrimento deles por perder um filho.’’
Ela conta que nunca teve problemas nas casas onde trabalhou, porque sempre se preocupou em prestar um bom serviço. ‘‘Quando a gente dá respeito, é respeitada também.’’
Ela concorda que muitas empregadas domésticas não sabem fazer o serviço corretamente, mas diz que o ‘‘bom entendimento’’ depende também da patroa. ‘‘As patroas têm de dar uma chance para as empregadas. Precisam ensinar e mostrar o querem, com respeito.’’

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