Medo, frio, fome e exaustão física dominaram um fim-de-semana inteiro de 64 jovens, durante uma aventura que começou às 20 horas de sexta-feira, dia 6, e só terminou às 18 horas de domingo, dia 8. Na teoria, um avião havia caído. Na prática, o grupo participava de um teste de sobrevivência do curso de comissário de vôo da escola Fly Trainning do Aeroclube de Londrina.
Mas comandada por um tenente do Corpo de Bombeiros, Ezequias de Paula Natal, a simulação ganhou contornos de verdade para uma maioria de participantes que jamais havia permanecido por tanto tempo sem banho, com pouca comida e sem o conforto de um bom sofá, um aparelho de tevê ou uma boa cama.






Por baixo e por cimaTravessia de rio (foto superior), com água até a cintura ; na foto central, o uso da falsa baiana, a 8 metros de altura; hora de descanso (foto inferior)Antes de partir para o local onde a aeronave supostamente havia caído, uma surpresa nada agradável para o grupo: cobras! Às 20 horas do dia 6, início da aventura, os alunos foram submetidos à torturante missão de salvar companheiros de situações de risco com quatro delas (Cascavel). Alguns participantes tiveram que segurá-las, outros tiveram os horripilantes ‘‘bichos’’ passados pelo corpo.
- Parecia loucura. Houve choradeira e desespero - disse uma aluna.
A lição foi coordenada pelo instrutor Dorival Souza Justino, que depois explicou que o local onde os alunos receberiam ensinamentos sobre sobrevivência é abrigo de espécies como coral, cascavel, urutu e jararaca. Portanto, havia necessidade de preparar os participantes para situações de emergência.
Se a explicação satisfez, ninguém respondeu. Mas a choradeira terminou e as lágrimas foram enxugadas. Era hora de partir para a mata preservada de uma fazenda perto da Usina Três Bocas, na zona sul do município, a Remanso. Havia tempo para desistências, mas depois das cobras todo o grupo se encorajou e seguiu em frente.
A chegada na sede da Fazenda Remanso, de ônibus, foi por volta de 1 hora, já no começo da madrugada do dia 7. Os alunos foram divididos em quatro equipes, mas antes tiveram as mochilas revistadas pelos instrutores. Quem levou comida escondida, pensando em tapear a fome, se enganou. Tudo foi retirado e, para compensar, cada equipe recebeu uma galinha viva, que foram ‘‘apelidadas’’ de Marylu, Crotilde, Giselda e Brooke Shields. Mais tarde, cada equipe teria que preparar a sua galinha para repartir entre os integrantes.
Um instrutor reprisou, no início de uma caminhada de 10 quilômetros:
- As cobras agem por onda de calor e vibração de som. O silêncio e a imobilização permite que elas não ataquem.
A primeira prova de fogo, já na mata, foram duas casas tomadas por fumaça, preparadas daquela forma para que os alunos permanecessem dentro por tempo determinado. Depois, os ‘‘sobreviventes’’ tiveram que atravessar um corredor de fogo, onde a única passagem disponível exigiu um mergulho e o avanço rastejado na lama.
Vencida a etapa, o dia já estava amanhecendo e o momento poderia ser de descanso, não fosse uma simulação de socorro a feridos organizada por um dos instrutores. Só depois veio o repouso, que durou até às 7 horas. Ainda com as roupas molhadas, os alunos tiveram que atravessar um córrego usando uma ‘‘falsa baiana’’ (cordas de apoio para travessia de rio) estendida por dez metros e a oito metros de altura. O participante Antônio Pedro Moreira, 22 anos, se conformou:
- Aqui é o seguinte: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.
O bicho, no entanto, nem comeu e tampouco pegou alguém. O obstáculo foi transposto e surgiu a próxima prova de resistência: a entrada na mata por uma trilha com lama e taboas ultrapassando a altura dos joelhos, local adequado para as jararacas.
- Não dá para acreditar que passamos por isto.
A surpresa, manifestada pela aluna Ane Fabrício Bravo, 24 anos, antecedeu a mais demorada e cansativa prova de sobrevivência: a travessia da mata no espaço de 24 horas, com o uso de bússula para orientar as equipes. Cada uma delas teria que atingir um rio, onde seria montado acampamento.
Três equipes encontraram o destino por volta das 18 horas do dia 7, uma se perdeu. As que chegaram sacrificaram suas galinhas, que foram sapecadas no fogo e devoradas. Samanta Vargas, 21 anos, mordendo um pedaço do pescoço da ave, comentou:
- Quando a fome aperta isso aqui é um banquete.
Já de noite, sem notícias da equipe desaparecida, voluntários acompanharam dois instrutores em uma patrulha noturna. Nenhum sinal foi encontrado. Mas, longe do acampamento, a equipe perdida relataria depois, na voz da aluna Fernanda Meneghel, 19 anos:
- Apesar de não vermos perspectivas para sair, em momento algum perdemos a esperança. O instrutor soube nos passar muita confiança.
Mal amanheceu o dia 8 quando novos grupos de busca foram organizados. Metade subiu a mata por quatro horas de caminhada e o restante aguardou no acampamento. Após seis horas de busca, a equipe foi encontrado nas margens do rio. Os alunos que permaceram no acampamento receberam como exercício a caminhada por 1h30 rio abaixo, até o ponto onde a equipe desaparecida foi localizada. Scheila Regina da Silva, 22 anos, desabafou:
- Foi uma lição de vida, que vai marcar o resto dos meus dias.
Mais 10 quilômetros de subida até o final da prova renderam, no final, lamentos, queixas e reclamações. Mas uma churrascada, no ponto para ser consumida, estava à espera dos ‘‘sobreviventes’’.

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