Curso irregular movimentou R$ 140 milhões no PR
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domingo, 16 de agosto de 2009
Rosiane Correia de Freitas<BR>Equipe da Folha 
Curitiba - Nenhum dos 29 mil concluintes do Programa de Capacitação para Docência dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e da Educação Infantil da Faculdade Vizinhança do Iguaçu (Vizivali) recebeu diploma reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC). O curso foi ofertado entre 2002 e 2006 a professores paranaenses com formação de nível médio, chegou a ter 38 mil alunos e movimentou um total estimado em R$ 140 milhões, segundo o deputado estadual Péricles de Mello (PT).
Por uma mensalidade de R$ 130, a promessa era que os alunos teriam, ao fim de dois anos, direito ao diploma de licenciatura com habilitação em Educação Infantil. Sete anos depois, a validade do curso está em xeque. Para a presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Célia Brandão, a ilegalidade está na modalidade em que o Programa foi ofertado. ''O Conselho Estadual de Educação não poderia autorizar um curso nessa modalidade a distância'', alertou.
Outra irregularidade no curso da Vizivali está na parceria com a empresa de materiais didáticos Iesde Brasil S/A. ''O fato da execução do curso ser terceirizada é mais grave ainda porque somente a instituição com credenciamento para realizá-lo poderia efetivamente ofertá-lo'', esclareceu.
Em entrevista à FOLHA, o diretor da Vizivali, Paulo Fioravante Giareta, admitiu que a faculdade tinha funções burocráticas na gestão do Programa. ''Nosso trabalho era o de respaldo documental e de auxílio pedagógico'', contou. Em 2002, a Vizivali, que foi criada em 1999, tinha apenas 300 alunos nos cursos presenciais e não havia formado ainda a primeira turma do curso de Pedagogia.
Para acomodar os documentos e trabalhos de conclusão de curso dos 38 mil alunos do Programa, a Vizivali chegou a construir salas novas. ''Temos uma ala só para guardar todo esse material'', contou.
Dos valores pagos pelos alunos, explica Guareta, menos de 10% eram transferidos para a Vizivali e a União dos Dirigentes Municipais de Educação no Paraná (Undime-PR). ''Por contrato, a Undime recebia 2% para cobrir despesas com divulgação e a Vizivali ganhava entre 5% e 6% do valor do curso'', contou.
Em campo, nas cidades em que o curso foi ofertado em todo o Paraná, a face institucional do curso era o Iesde. Nos contratos assinados por milhares de alunos em todo o Estado, a empresa aparece como fornecedora de materiais didáticos. ''Para nós era o curso do Iesde'', lembrou a ex-aluna Elisabete Fabricio Plácido, de Palotina (96 km ao norte de Cascavel).
Para Elisabete, falar no curso do Iesde é doloroso. ''É o meu calo. Fico nervosa só de pensar'', reclamou. Em 2006, quando concluiu o curso, Elisabete pagou duas parcelas de R$ 30,00 pelo sonhado diploma de licenciatura. ''Meu sonho era ser professora'', disse.
A turma dela teve direito à cerimônia de formatura e festa, mas não ao diploma. ''Teve parentes meus que vieram do Mato Grosso para festejar comigo''. Ela lembra com vergonha da formatura. ''Tem quem ri da gente por causa disso'', comentou. Hoje Elisabete é uma das centenas de alunos que movem ações na Justiça contra a Vizivali e o Iesde.
O Iesde Brasil informou à reportagem, através de sua assessoria de imprensa, que não irá comentar o caso porque trata-se de uma disputa judicial que ainda está em andamento.


