Durante um vôo internacional, um passageiro árabe passou apressadamente pelo corredor carregando um pacote debaixo do braço. A comissária de bordo, atenta, percebeu e desconfiou que fosse um terrorista carregando uma bomba. Imediatamente, avisou o resto da tripulação, mas antes que fosse tomada qualquer atitude mas drástica, o árabe desfez a desconfiança: estendeu um tapete que carregava, ajoelho e rezou voltado para Meca - um dos preceitos do Islamismo.
Esta é apenas uma das histórias que a londrinense Maria Angélica da Silva, 36 anos, guarda como lembrança da época em que era comissária de bordo. Ela atuou na profissão de 1979 a 1996 e só parou porque, durante um vôo, teve o tímpano perfurado e foi aposentada por invalidez. ‘‘Até hoje é difícil a minha adaptação. Eu vejo um avião passando perto de casa e me dói saber que estou impotente para continuar a voar’’, lamenta. Hoje, Angélica trabalha como coordenadora de um curso de comissário de bordo em Londrina e compensa um pouco a tristeza de não poder mais atuar na profissão ensinando os alunos.
Ela conta que sempre quis ser comissária de bordo e esta vontade aumentou depois que a irmã, Míriam, ingressou na profissão. Aos 17 anos, criou coragem e começou a procurar as companhias aéreas à procura de empresa. Conseguiu ser aceita na Transbrasil e, após um curso de seis meses, começou a voar. Os familiares e amigos, lembra, ficavam apavorados e com pena da mãe por ter duas filhas trabalhando como comissárias. ‘‘Eles ficavam imaginando se o avião caísse com as duas dentro’’, relata. ‘‘Mas a minha mãe sempre nos deu apoio e disse que confiava em Deus, que ninguém ia morrer antes da hora.’’
Trabalhando como comissária, Angélica conheceu praticamente o Brasil todo e vários países da Europa, Oriente e América do Norte. Durante os vôos, era comum também cruzar com pessoas famosas. Um de seus passageiros preferidos, confessa, é o deputado federal Delfim Neto. ‘‘Ele é muito cavalheiro’’, resume. Mas, ao que parece, o deputado é uma exceção. Segundo Angélica, os passageiros mais difíceis de aguentar são os políticos, independente do país. ‘‘Eles acham que o país depende deles e por isso querem tudo para ontem’’.
Ao contrário de Maria Angélica, a gaúcha Evangelina Sanches Lima, 39 anos, abandonou a profissão de comissária de bordo por vontade própria. Ela mora atualmente em Londrina e trabalhou na profissão de 1982 a 1995. ‘‘Foi uma fase muito boa, mas chegou uma hora que eu optei por seguir um outro projeto’’, conta. Hoje ela trabalha como psicóloga. Evangelina trabalhou três anos em rotas nacionais e 10 em internacionais. Ela também teve a oportunidade conhecer vários países, ter contato com culturas diversas e fazer muitas amizades. ‘‘Foi uma grande escola em termos de relacionamento humano’’, afirma.
Ter como passageiros pessoas famosas era rotina no serviço de Evangelina. ‘‘Pilotos da Fórmula 1, jogadores de futebol, muitos políticos’’, cita. Entre todas as pessoas, ela lembra de um em especial: o bailarino (já falecido) Rudolf Nureyev. ‘‘Eu já fui bailarina e foi uma emoção vê-lo’’, lembra. Ela confessa que não teve coragem de ir atendê-lo porque sabia da sua fama de mal-humorado. ‘‘Preferi vê-lo de longe.’’

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