Londrina

Dorico da Silva‘Modelo é centrado no estudante e valoriza mais o aprendizado que o ensino’
Pedro Gordan e João Campos, professoresQuando os 80 calouros do curso de Medicina chegarem à Universidade Estadual de Londrina (UEL) para o primeiro dia do ano letivo, não haverá nenhum professor os esperando na classe para uma aula teórica sobre anatomia, histologia ou outro conteúdo qualquer. Os estudantes vão se deparar com um tutor que, em vez de ensinar, vai perguntar. Esta é apenas uma das mudanças que os alunos vão encontrar com a implantação do novo currículo do curso de Medicina da UEL, que entra em vigor para os acadêmicos que ingressarem na Universidade a partir do ano que vem. O curso de Medicina da UEL completou 30 anos de existência em 1997 e já formou mais de 2 mil profissionais. Atualmente, ele conta com 245 professores e 360 alunos.
Bastante discutido e alvo de muitas críticas dentro da própria Universidade, o novo currículo tem a preocupação de integrar a teoria à prática já no primeiro ano, além de aproximar os calouros dos problemas básicos de saúde da população. Ele é inspirado no modelo de aprendizagem baseado em problemas, ou no Problem Basic Learning (PBL), surgido na Holanda há algumas décadas.
O sistema acaba com as aulas tradicionais as quais os estudantes brasileiros estão acostumados, centrada no professor e no conteúdo. Caberá ao tutor apresentar um problema para discussão - e os alunos vão pesquisar sobre o tema. ‘‘O modelo é baseado e centrado no estudante e valoriza mais a aprendizagem que o ensino’’, justifica o diretor do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UEL, médico Pedro Gordan, um dos responsáveis pela implantação do novo currículo.
Ele conta como vai ser a primeira reunião entre os calouros e os tutores (professores preparados para conduzir a discussão em grupo e que não precisam ser médicos), depois de conhecerem a Universidade e o CCS. Os estudantes serão apresentados ao seguinte problema: ‘‘Paulo, aluno do 3º ano de Medicina, estudava para as suas provas. Há dias, estudava em grupo, dormia pouco, se alimentava mal, ansioso com a proximidade das provas. Na manhã de uma das provas, acordou com calafrios, dores musculares, dor de cabeça, logo surgiram espirros e coriza; não se sentiu bem durante a prova e foi encaminhado ao Nubec (Núcleo de Bem-Estar à Comunidade). No dia seguinte, alguns colegas, que haviam estudado junto, apresentavam os mesmos sintomas’’.
O tutor pedirá então que os alunos identifiquem a doença, os fatores ambientais e pessoais que possam facilitar a infecção e quais as características do agente em questão. Ele passará também a bibliografia para pesquisa, o telefone dos professores assessores (que darão suporte à pesquisa) e marcará a data para discussão do caso.
Depois disso caberá aos alunos buscar as respostas. Eles serão agentes de seu próprio aprendizado. ‘‘Hoje os estudantes entram na faculdade de Medicina e passam dois anos no curso básico sem nenhuma idéia para que serve o conteúdo’’, constata Pedro Gordan. ‘‘Nós queremos acabar com tudo isso, que está errado.’’
Gordan lembra que o modelo é inspirado nas idéias do educador brasileiro Paulo Freire e na teoria construtivista, em que o indivíduo aprende a partir de suas próprias experiências: ‘‘Nós não podemos ensinar adultos como ensinamos uma criança. Temos que ensinar a partir de experiências vividas’’.
O professor explica que desaparecem as disciplinas específicas como Anatomia, Citologia e Bioquímica. Os conteúdos que fazem parte delas terão que ser pesquisados pelos alunos. Valerão agora a iniciativa e o empenho dos acadêmicos. ‘‘As disciplinas como são ministradas hoje darão lugar a uma maneira mais integrada de aprender’’, ressalta o diretor do CCS.
Paralelamente a essas atividades, os acadêmicos receberão o que os professores chamam de ‘‘ensino de habilidade’’: noções de comunicação, de informática, de habilidades clínicas e outras. ‘‘Nós queremos formar um profissional mais capaz de se comunicar com o paciente, com os colegas e com os familiares’’, diz Gordan. ‘‘Queremos um profissional mais socialmente relevante’’, complementa o coordenador do Colegiado do Curso de Medicina da UEL, João José Batista de Campos.
Gordan reconhece que a principal ênfase do novo currículo não está dirigida às especialidades. A prioridade, explica, não é formar médicos preparados para tratar doenças de forma segmentada, mas profissionais capacitados para atuarem como promotores da saúde integral do ser humano. Ele acredita que, com esta nova forma de aprender, os alunos de Medicina da UEL se tornarão médicos com maior preocupação humanística.
Este respeito começa afastando os doentes das aulas onde os alunos praticam habilidades como sutura, injeção, introdução de catéter, entre outras. A partir de agora, estas práticas serão feitas em manequins que comprados pela UEL.
Os professores também contarão com ajuda de pacientes voluntários e com pacientes simulados - atores do grupo de teatro da UEL - que vão atuar nas aulas de técnicas básicas de exames clínicos. Ainda no primeiro ano, os estudantes passarão por uma atividade chamada ‘‘imersão clínica’’, através do qual eles passarão duas semanas em estágios em postos de saúde e outras unidades clínicas do Município.
O internato, no último ano do curso, não vai mudar. É neste período que os acadêmicos de Medicina entram em contato direto com os pacientes, já que passam todo o tempo no Hospital Universitário.
Até 97, os alunos do 1º ano tinham só uma oportunidade extra-curricular de contato com a comunidade. É o Projeto Especial de Ensino, Prática Interdisciplinar e Multiprofissional (Peepin), através do qual os estudantes percorriam bairros carentes da Cidade, discutiam as principais necessidades com os moradores e estudavam soluções para a população.
Agora o Peepin vai ser institucionalizado e se transformará em um projeto chamado Práticas Interdisciplinares e Multiprofissionais em Atenção Primária à Saúde (Pim).
A mudança curricular representa também uma mudança no sistema de avaliação, que passará a ser somativa: 50% de peso para uma prova congnitiva e 50% de peso para auto-avaliação, avaliação inter-pares e avaliação do tutor. ‘‘Será uma avaliação formativa, que corrige à medida que avalia’’, explica Pedro Gordan.
Ele lembra que o currículo criado para o curso de Medicina da UEL é baseado na experiências de duas universidades estrangeiras, a MacMaster, no Canadá, e a Maastricht, na Holanda. No Brasil, só a Faculdade de Medicina de Marília (SP) implantou, este ano, um currículo com alteração pedagógica semelhante.
A proposta de um novo currículo para o curso de Medicina vem sendo estudado há vários anos na UEL. Mas ganhou uma força com o projeto Uni (Uma Nova Iniciativa na Educação dos Profissionais de Saúde - União com a Comunidade), da Fundação Kellogg, implantado na UEL em 94 com repasse de recursos de R$ 2,7 milhões.
Para o ex-diretor do CCS, Márcio Almeida, o novo currículo representa a conclusão de uma etapa na história do CCS. ‘‘O novo modelo pedagógico é necessário também em todos os cursos do Centro de Ciências da Saúde.’’ Ele diz que serão necessários seis anos para os resultados que apareçam.

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