Londrina - Foram mais de 30 anos longe da sala de aula, mas nunca dos livros. Ilza Maria Manhani do Amorim, de 55 anos, ainda comemora o resultado do vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL), anunciado na quinta-feira.
"Minha expectativa é entrar com pé direito, estudar, pesquisar, aprender muito e exercer esse nova profissão", comenta ela, que fez questão de comemorar a conquista da forma tradicional: em meio a ovos, farinha e lama. "A roupa está de molho até agora", brinca, se referindo à festa realizada no aterro do Igapó.
A escolha de Ilza foi pelo curso de Biblioteconomia. Ela explica que a leitura é como um vício, que ela divide com o trabalho de diarista e os afazeres de casa. A única vez que Ilza prestou vestibular foi aos 18 anos, mas logo em seguida abandonou a ideia de ingressar em uma universidade para se dedicar ao marido e aos três filhos.
"Com meus filhos criados, fui em busca de algo para mim. Sempre gostei de ler e nunca deixei de frequentar bibliotecas e sebos. Mas eu me considerava bem desatualizada porque sei que a UEL é bem seletiva. Eu precisava me preparar, frequentar aulas. Foi aí que fiquei sabendo do cursinho", comenta.
Ilza é um exemplo dos 116 aprovados (seis são do convênio com a Penitenciária Estadual de Londrina 2) do Curso Especial Pré-Vestibular da UEL, na segunda fase. Há 53 anos, o projeto vem preparando estudantes carentes ou que pararam de estudar há muito tempo para o vestibular.
Ao longo dessas décadas, foram centenas de aprovações e algumas adaptações para atender a toda a comunidade. "O cursinho vem mudando em termos de infraestrutura. Hoje, temos aulas com data show, microfones, mas o mais interessante é a inclusão de alunos com deficiência visual ou física", explica Rita de Cássia Rodrigues Oliveira, coordenadora do cursinho.
De acordo com ela, em 2013 foram 360 alunos inscritos para o vestibular. Destes, 230 passaram para a segunda fase e no final foram 110 aprovados. "É um resgate dessas pessoas que não têm condição de pagar um curso preparatório ou que ficaram muito tempo longe dos estudos. A cada ano a UEL tenta incluir mais e mais alunos", acrescenta.
Alex Junior dos Santos Oliveira, de 22 anos, é outro exemplo de esforço e dedicação. Ele foi aprovado em Direito e virou "celebridade" na família, como ele mesmo conta. "Ninguém da minha família fez faculdade, por isso eles também não acreditaram quando eu passei. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida até hoje", diz.
Nascido em uma família humilde, Alex aprendeu desde cedo a lição de trabalhar. "Comecei aos 12 anos, mas sempre levei a sério o que meu avô dizia. Ele falava que se eu não quisesse trabalhar a vida inteira na roça, eu precisava virar doutor", revela.
Sem condições de pagar um cursinho particular, Alex viu na UEL a oportunidade para transformar o sonho em realidade. "Não foi fácil. Estudei por quatro anos. No início, ia e voltava para a UEL a pé porque não tinha condições nem de pagar um ônibus. Chegava em casa perto da meia-noite e estudava até as três da manhã, mas não rendia porque eu tinha muito sono. Quando eu pensava em desistir, era motivado pelos amigos e professores. Hoje, vejo que tudo valeu a pena. Agora vou continuar sonhando porque um dia vou ser desembargador", diz, entusiasmado.

Inscrições
Na segunda-feira o cursinho da UEL abre inscrições para novas turmas. Os interessados devem fazer a inscrição no www.uel.br/sebec/cursinho até as 23 horas de 24 de janeiro. O processo de seleção inclui avaliação socioeconômica e prova de conhecimentos gerais. São ofertadas 450 vagas, sendo 150 para o período vespertino e 300 para o noturno. As aulas terão início no dia 6 de março. Mais informações no Sebec pelo fone (43) 3371-4452

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