Curral urbano A boiada atravessa o asfalto
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sábado, 19 de fevereiro de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Um boi solto na rua incomoda muita gente. Uma boiada então... nem se fala. Nem o saudosimo emoldurado pelo tempo da roça é capaz de apagar a poeira deixada por 10, 15, 20 animais passando na porta de casa em pleno perímetro urbano. Se lá para as bandas da estrada de Ouro Fino como diz o cancioneiro popular o menino corre abrir a porteira, na cidade a coisa é bem diferente. A beleza da cena desaparece na batida de casco no asfalto, às 6 horas da manhã, quando os moradores do Jardim Newman Sahyun (Zona Sul de Londrina), por exemplo, estão no último sono, antes de colocarem os pés no trabalho.
''Parece que estamos na fazenda. Tá vendo o asfalto sujo de barro? É boi. Tá vendo as flores do canteiro da calçada quebradas? É boi e cavalo que se deitam para se coçar'', diz a a dona-de-casa Alexandra Hilza Honorato, apontando para as evidências da passagem da boiada em frente à sua casa, no Newman Sahyun.
A lei é clara. O Código de Posturas do Município no artigo 60 diz: ''É expressamente proibida a permanência de animais soltos ou amarrados, nos parques, praças, logradouros, vias públicas e áreas de lazer do município''.
Então, como resolver o problema dos que moravam na Zona Rural e pegaram a estrada da esperança de novas oportunidades na cidade e que não sabem fazer outra coisa a não ser a lida do campo?
A sabedoria humilde do seo Geraldo Dutra, 68 anos, forjada apenas com a 2 série, é capaz de ensinar ele que mora no Jardim Perobal (Zona Sul) e que diz ter cinco cabecinhas de vaca, que coloca para pastar com as do seu filho na região do Aeroporto. Ao todo a família tem cerca de 250 cabeças de gado.
''Esse nosso Estado tinha que pôr esse povo que veio da roça na lavoura para poder produzir. Fazer casa popular para quê? Esse povo sem ter como trabalhar vai é roubar. Na Zona Rural vai produzir''.
A prefeitura, através das secretarias de Meio Ambiente (Sema) e Agricultura e do Abastecimento, tenta resolver o problema, que até parece estouro de boiada, se espalhando por várias regiões da cidade. A situação mais crítica se concentra nas zonas Sul e Leste.
Há, por exemplo bois soltos na Estrada dos Pioneiros um rebanho de cerca de 100 cabeças. Para maior desespero dos moradores do Newman Sahyun, pelo menos cinco pessoas criam animais na região. Na Fazenda Refúgio, um grupo que invadiu a área cria cerca de 200 bois. Outro criador tem mais 100 e por aí vai. A soma total de animais criados no perímetro urbano é arredondada para 1,2 mil cabeças cadastradas pela Sema.
São pelo menos 89 famílias e 256 pessoas que vivem da atividade, comercializando leite para moradores dessas regiões. Eles vendem o produto a R$ 1,00 o litro, e entregam na porta de casa. Quem não tem dinheiro, pode comprar fiado.
Porém, a qualidade e a higiene desse leite são questionáveis. Sem falar em riscos de acidentes envolvendo animais que invadem as ruas, pondo em perigo a vida das pessoas. Apesar de alguns criadores afirmarem que vacinam o gado contra a febre aftosa medida que deve ser tomada duas vezes ao ano existe a preocupação com as vacinas de brucelose, que devem ser aplicadas nas fêmeas com três a oito meses de idade.
''Estamos preocupados com os dois lados, tanto o bem-estar da população que consome esse leite, como também com os criadores'', afirma a veterinária da Sema, Anne Christina Hiltel.


