A curitibana J. L., 24 anos, viveu até quatro meses atrás pensando que seu drama de ser transexual não teria solução. Depois de ver uma reportagem no jornal sobre a redesignação de sexo (cirurgia de mudança de sexo), iniciou um tratamento e hoje sonha com uma vida nova, sem se preocupar com o isolamento. J.L. nasceu com mais hormônios masculinos. Ela tem pênis e, por isso, traz em seus documentos o nome de Marco Aurélio.
‘‘Ser transexual é como ter uma alma feminina presa num corpo masculino’’, define ela. J. conta que até aos seis anos cresceu pensando que era um menino. Mas a partir dessa idade começou a perceber diferenças. ‘‘Tinha vontade de me olhar no espelho, de cuidar da aparência. Era a vaidade mesmo’’, diz. A melhor identificação com as meninas também provocaram confusões. J. preferia brincar com as garotas do que com os garotos.
Sem o apoio da mãe, J. viveu um drama ainda maior. ‘‘Ela falava que eu tinha que andar diferente, ter uma voz mais grossa’’. J. chegou a tentar, apenas para agradar a mãe, uma mulher severa que morreu no ano passado em decorrência do alcoolismo. Não aguentando a pressão, J. saiu de casa aos 17 anos, um ano depois de ter parado de estudar por causa dos problemas que existiam na escola. Os professores chamavam o aluno Marco Aurélio, mas o que visualizavam era uma mulher.
Segundo J.L. o nome é um dos maiores problemas dos transexuais. Mesmo qualificada, ela chegou a perder um emprego quando apresentou a documentação pessoal. J. diz que as pessoas costumam confundir os transexuais com travestis, que têm a identidade igual ao sexo, mas que representam o sexo oposto. Já o transexual tem a identificação sexual oposta ao sexo fisiológico.
Trabalhando como secretária domiciliar, J. diz que os transexuais costumam se isolar das pessoas para não ter que revelar seu segredo e serem discriminadas. Durante toda a vida, ela teve três namorados. Para os dois primeiros nunca teve coragem de falar. Contou apenas para o último, que gostando muito dela aceitou facilmente. Mas o namoro acabou não indo em frente. J. terminou o relacionamento porque percebeu que gostava do rapaz apenas como um amigo. ‘‘Os namoros terminam porque eles vão me sufocando. Dá vontade de dizer, mas falta coragem’’, revela.
Sonhando com uma nova vida, J. está sendo orientada na Clínica de Sexologia da Universidade Tuiuti, em Curitiba, que vem sendo referência para pacientes de todo o Brasil. Ao todo serão dois anos de análises e exames até que a cirurgia de redesignação de sexo seja autorizada. Ela depende ainda da implantação de um projeto da sexóloga Regina Teixeira, que está tentando sensibilizar o governo Estadual a adaptar algum hospital para realizar a cirurgia no Estado. Com isso, o procedimento pode passar a ser feito, principalmente de forma gratuita. Atualmente, uma cirurgia particular de mudança de sexo custa em torno de R$ 8 mil e vem sendo feita principalmente em São Paulo.

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