Leandro Donatti
De Curitiba
O governador Jaime Lerner disse ontem que os curitibanos não suportavam mais o acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra montado em frente ao Palácio Iguaçu. ‘‘Aceitamos manifestações. Não estamos tirando a liberdade das pessoas de se manifestarem, mas essa ocupação não podia continuar. O povo não estava mais aprovando isso’’, declarou por telefone à Folha, uma hora e meia depois de concluído o despejo, por volta das 8h30. Lerner estava em Toledo.
‘‘Pelo relato que tive da Secretaria de Segurança, a operação foi feita com muita tranquilidade e harmonia. Foi um sucesso, sempre com o cuidado de se respeitar as pessoas ao máximo’’, disse o governador. Lerner afirmou ainda que a desocupação ‘‘é um assunto pontual’’. ‘‘Estamos sempre abertos ao diálogo, tanto com o Movimento Sem Terra, como com os ruralistas. Vamos continuar mantendo esse canal de negociação’’, garantiu.
O governador não comentou os diversos incidentes ocorridos ao logo da desocupação. Preferiu destacar o trabalho da assessoria especial criada pelo seu governo para discutir a reforma agrária no Estado como um dos pontos que sinaliza a boa disposição do poder público em resolver o problema da terra no Estado. ‘‘Nunca nos recusamos a conversar com o movimento ou com os ruralistas, para resolver o problema.’’
Lerner anunciou que a praça que serviu de acampamento dos sem-terra por quase seis meses vai agora dar espaço para um complexo recreativo com múltiplo uso. ‘‘Faremos uma praça de esporte para toda a população da capital. Ganha com isso o povo de Curitiba.’’
O governador não estava em Curitiba. Acompanhou a desocupação à distância, do interior do Estado. Lerner cumpria desde sexta-feira agenda nas regiões Norte e Oeste. Lerner falou com o secretário da Segurança, Cândido Martins Oliveira, antes e depois da desocupação. A conversa, para avaliar o resultado da operação, foi por volta das 7 horas, quando saíam de frente do palácio os últimos ônibus com sem-terra.
O presidente da Sociedade Rural do Paraná, Francisco Galli, que vinha fazendo críticas ao fato de o governador não tomar uma atitude quanto à ocupação da praça do Centro Cívico, considerou ontem acertada a postura do governo em fazer a desocupação. ‘‘Toda vez que o governador cumprir a lei, ele está correto’’, disse. ‘‘A praça é pública, pertence a toda a sociedade. Assim como exigimos a reintegração de posse das fazendas particulares, não é possível permitir que um patrimônio público seja dilapidado’’, complementou.
Galli salientou ainda que neste caso ‘‘cabe um processo indenizatório devido aos estragos que foram feitos na praça, inclusive com a punição dos responsáveis’’. Na sexta-feira Galli encontrou-se rapidamente com o governador em Londrina, mas afirmou que não falaram sobre o assunto.Jaime Lerner disse que o povo não estava mais aprovando o protesto do MST mas garante que continua aberto ao diálogo
Albari RosaSEM BARRACODoralice Oliveira Lima, 36 anos, estava na casa da mãe, em Curitiba. ‘‘Vim para cá quando ouvi no rádio e só deu para salvar minhas coisas, que estavam jogadas no meio do barraco’’, contou depois, agarrada a uma espuma de colchão

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