Curitiba faz transplante de células-tronco adultas de córneas
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sábado, 26 de agosto de 2006
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Curitiba Ainda uma novidade no País, o transplante de células-tronco adultas de córneas é realizado em Curitiba. O oftalmologista Daniel Wasilewski, que desenvolveu cultura de células-tronco adultas da córnea na University of South California, em Los Angeles (EUA), há dois anos, trabalha para implantar o serviço em Curitiba. Por enquanto, o médico realiza um transplante por semana, no Hospital de Transplantes do Paraná ou no Hospital de Clínicas (HC). ''No HC ocorre de forma mais precária porque o número de pacientes pelo SUS ainda é maior. Não damos conta nem de 10% da demanda'', informa.
Segundo Wasilewski, o procedimento que vem sendo realizado na Escola Paulista de Medicina (SP) há dois anos é necessário nos casos em que a pessoa apresenta opacidade da córnea associada à deficiência de células-tronco, que são responsáveis pela manutenção da córnea sadia, íntegra e transparente. Cerca de 10% de todas as pessoas que estão na fila de espera para transplantes de córneas também precisam de transplante de células-tronco.®MDBO¯®MDNM¯
Ainda de acordo com o médico, a intenção é iniciar o cultivo de células-tronco em Curitiba. ''Só faltam as doações, que ainda são poucas, e conseguir verbas dos governo federal e estadual para o cultivo em laboratório. Por enquanto, não temos condições financeiras, temos equipe e pessoal qualificado'', contextualiza. Este tipo de transplante, que deve ser indicado depois de diagnóstico médico, serve para restabelecer a visão, principalmente nos casos de queimadura ocular química por cal ou produto ácido e de limpeza, ou térmica e outras doenças que afetam o olho, como a síndrome de Stevens-Johnson, penfigóide ocular cicatricial, congênita liridia, aneridia congênita e pterijio, fora o uso crônico ou frequente de lentes de contato.
Foi uma queimadura ocular que levou o autônomo José Luiz Novoa, de 54 anos, a enxergar apenas vultos. O acidente aconteceu há quatro meses, quando uma mangueira que transportava amônia, na fábrica de produtos químicos que ele trabalhava, rompeu e o produto químico e corrosivo atingiu o rosto, a boca, a garganta e os olhos de José Luiz. O acidente causou queimaduras e destruiu parte das células-tronco das córneas. ''Eu não morri graças a Deus. Sofri queimaduras criogênicas (causada por baixas temperaturas). Minha visão está embaçada, como fica numa pessoa com catarata. Fiquei com o olho esquerdo mais prejudicado'', relata ele.
''A coisa mais terrível que existe é ter a visão e perdê-la. É uma agonia, não consigo nem dormir. Dá uma insegurança ter que depender de outras pessoas. Sem falar que tive que fechar meu negócio porque não tenho capacidade de trabalhar'', desabafa José Luiz, referindo-se à oficina mecânica industrial desativada que tem ao lado de casa. A empresa se responsabilizou pelos gastos médicos e José Luiz está vendendo os bens para sobreviver.
''Para me recuperar só com o transplante. Mas como fui adotado, encontro dificuldades em localizar minha mãe e irmãos biológicos. Com eles terei mais chances de conseguir células-tronco compatíveis'', lamenta ele, dizendo que só lembra que a mãe morava em Assaí e trabalhava num restaurante da cidade, e não sabe nem o nome dela.
''A gente vê muita criança que brinca de fazer bomba de cal, colocando o produto de construção numa garrafa de refrigerante com água. Chacoalhando provoca uma reação química poderosa e explode. Atingindo os olhos causa queimadura severa nos olhos. É praticamente impossível o olho voltar a ser como antes'', alerta o especialista.


