Curitiba faz 310 anos
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sexta-feira, 28 de março de 2003
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
Curitiba A capital do Paraná completa 310 anos hoje. Aos olhos azuis e pele clara dos descendentes de poloneses, alemães, italianos e ucranianos que predominavam nas ruas da cidade há alguns anos, agora soma-se uma multidão cada vez maior de negros, nordestinos, homens e mulheres que migram de outros estados à procura de oportunidades de emprego e melhor qualidade de vida.
Curitibanos ''da gema'' com idade acima de 40 anos afirmam que a cidade não é mais a mesma. Há 30 anos a vida girava em torno dos passeios da recém-fechada Rua das Flores, incluindo paradas indispensáveis nos famosos Bar Cometa e Confeitaria Schaffer. Todos, entre intelectuais, estudantes e aposentados, frequentavam o Bar Stuart e Pasquale. E não havia quem não conhecesse a Gilda homem vestido de mulher , que, em trajes sujos e boca lambuzada de batom, insistia em roubar beijos dos marmanjos que passavam pela XV.
Essa intimidade da população com o dia-a-dia da Capital rendeu a Curitiba a justa fama de ser provinciana. Apesar da miscigenação da população, o famoso sotaque do ''leite quente'', tão propagado pelo poeta maior da cidade Paulo Leminski, persiste. Ao mesmo tempo, a população de Curitiba já aprendeu e se acostumou às comodidades do século XXI. São os cybercafés, que multiplicam-se pela cidade; supermercados 24 horas; cinemas que deixaram as salas de rua para se agrupar em shoppings, com maior tecnologia de som e imagem; novos bares e cafés, similares aos europeus; até a inauguração, em breve, do maior shopping center da América Latina.
Em números, os resultados dessas mudanças são conflitantes. Segundo a Prefeitura de Curitiba, em março de 2001, pesquisa patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU) apontou Curitiba como a melhor capital do Brasil pelo Índice de Condições de Vida (ICV). Por outro lado, Curitiba ocupa a 19 posição no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH), calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (PNUD) para medir o bem-estar da população (leia matéria na página 7).
''Curitiba hoje tem uma cara múltipla. De 15 anos para cá ela se abriu para outras pessoas. Isso aconteceu ao mesmo tempo em que houve o esvaziamento de população de cidades do Norte e Oeste do Paraná'', diz o chefe do Departamento de população e indicadores sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Luiz Antônio Pinto de Oliveira. Ele ressalta que ''Curitiba foi previdente ao fazer o planejamento urbano quando ainda tinha 800 mil habitantes. Seria impossível fazer isso agora com o dobro da população'', afirma.
Talvez, seja graças a esse planejamento que no Censo 2000 do IBGE, os Indicadores Sociais apontam Curitiba quase sempre em melhor posição do que a média brasileira. Enquanto um chefe de família recebe em média R$ 769,00 no Brasil, em Curitiba a média chega quase ao dobro (R$ 1.431,00). Um chefe de família tem, em média 5,7 anos de estudo no Brasil contra 8,6 em Curitiba. Nos serviços de saneamento Curitiba também se destaca. Segundo o censo 2000, a Capital tem 471.163 domicílios, sendo que 98,6% têm rede de abastecimento de água e 77,3% contam com coleta de esgoto.
O mesmo não acontece com o restante do Paraná, cujos índices seguem a tendência nacional. Esse, aliás, é um desafio para Curitiba que, agora, se vê pressionada pelo crescimento da Região Metropolitana.


