Emerson Cervi
De Curitiba
São muitas as diferenças entre a Curitiba de 1899 e a atual. A começar pelo tamanho. No final do século XIX, a capital da então província do Paraná tinha 49.755 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Hoje, está chegando a 1,6 milhão.
Em 1899 o transporte coletivo da cidade se resumia a um serviço de bondes puxados por burros que ligava o Batel ao Alto da Glória. Um século depois, tem um dos sistemas de transporte coletivo mais avançados do mundo, interligando vários municípios da região metropolitana e utilizado diariamente por quase um milhão de passageiros todos os dias.
Há cem anos existiam apenas sete ruas com calçamento, de um total de 77. Havia também 16 largos e praças, algumas travessas e boulevares. As preocupações com o planejamento urbano começavam a surgir naquela época. Hoje, são milhares de quilômetros de asfalto e a cidade é citada como exemplo internacional em soluções para problemas urbanísticos. De local cheio de banhados e água insalubre, passou a ter um dos melhores índices de qualidade de vida entre as capitais brasileiras.
Em meados do século passado, o viajante inglês Bigg-wither comparou a capital paranaense a um acampamento de tendas brancas devido a semelhança em todas as suas edificações, que não passavam de algumas centenas. Em cem anos este ‘‘acampamento’’ se transformou em milhares de habitações dos mais variados tipos, tamanhos e estilos, exigindo uma regulamentação específica para cada setor da cidade.
Apesar de todas as diferenças, existiriam semelhanças entre a capital paranaense do fim do século XIX e a do fim do século XX? Com certeza, sim. Em seu livro ‘‘Clotildes ou Marias – mulheres de Curitiba na primeira república’’, a professora de história da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Etelvina Maria de Castro Trindade, relata pelo menos uma delas: a preocupação da sociedade com o desenvolvimento econômico.
As pré-condições para a industrialização da cidade são muito anteriores à Cidade Industrial de Curitiba (CIC), inaugurada em 1973. Elas são constatadas há pelo menos um século. Etelvina Trindade cita um techo do livro ‘‘A Terra do Futuro’’, do início desse século, onde o autor responde se Curitiba tem condições para ser naturalmente uma cidade industrial. ‘‘...Todas. Como nenhuma outra cidade do Estado por seu clima, sua posição geográfica, por sua importância do ponto de vista administrativo, reunindo-se ainda a tudo isso suas felizes condições hidrográficas...’’.
Foi nos últimos anos do século XIX que começaram a surgir em Curitiba as fábricas de meias, camisas, espartilhos e objetos de alumínio, que atenderiam a demanda dos Campos Gerais e litoral do Estado nas décadas seguintes.
Nos dias atuais, a cidade conta com centenas de indústrias e responde por 24,3% do Produto Interno Bruto do Paraná. Com uma economia diversificada, a capital foi escolhida pelo plano de desenvolvimento do Estado como centro de produção de alta tecnologia. Nos últimos anos a região metropolitana de Curitiba recebeu cerca de U$ 5 bilhões em investimentos na indústria automotiva. Em grande parte, a atração de empresas para a cidade no fim desse século deve-se aos mesmos motivos de 1899: ‘‘posição geográfica, importância do ponto de vista administrativo e clima.’’Do final do século 19 para cá, a cidade passou de 50 mil habitantes para cerca de 1,6 milhão de moradores
ReproduçãoReproduçãoSéculo XIXAo lado, vista da Curitiba no final do século passado. Acima, descendentes de italianos posam ao lado de missionárias, em 1900Arquivo FolhaArquivo FolhaNa foto ao lado e acima, operários trabalhando na fábrica da Volvo, em Curitiba. Ao lado, movimento de fim de ano no Calçadão da Rua XV de Novembro