Cultura favorece atos criminosos
As denúncias do livro ‘‘Farmáfia’’ não surpreenderam o médico sanitarista pernambucano José Ruben Bonfim, 49 anos, coordenador-executivo da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravime). Fundada em 1990, a entidade é uma sociedade científica que reúne farmacêuticos, médicos e outros profissionais de saúde de todo o País e tem o objetivo de defender o consumidor de medicamentos, promovendo o uso racional desses produtos.
‘‘No Brasil, sempre houve uma liberdade exagerada na venda de produtos farmacêuticos. A comercialização é feita sem controle’’, analisou Bonfim em entrevista à Folha, por telefone, da sede da Sobravime, em São Paulo. ‘‘Essa cultura enraizada é terreno fértil para o avanço de práticas inescrupulosas e criminosas.’’
Na opinião do sanitarista, o problema da ‘‘empurroterapia’’ no Brasil é histórico. ‘‘A regulamentação das farmácias só começou no País em 1931. Mesmo assim, a atividade sempre foi encarada, até na legislação, como comercial, e não de saúde.’’
Outro fator que contribui para a ‘‘empurroterapia’’, de acordo com Bonfim, é a compulsão do brasileiro para usar medicamentos. ‘‘Só a metade da população consome remédios. A outra metade não tem acesso. Mas os que consomem, consomem sem orientação médica ou sob orientação de médicos que estão sob influência direta da indústria farmacêutica’’, afirma.
Para ‘‘remediar o mal’’, Bonfim sugere três soluções: aprovação de leis que definam as farmácias como estabelecimentos de saúde - não apenas comerciais - e atribuam responsabilidade técnica ‘‘real’’ ao farmacêutico; realização de um trabalho permanente de esclarecimento do consumidor, fazendo com que ele reduza o uso de medicamentos ao mínimo possível; e, por último, a ‘‘educação’’ de médicos e farmacêuticos para o uso racional desses produtos.
(Valmir Denardin)‘Chegou uma cliente que queria fazer um aborto. Aí, eu apliquei uma injeção de água destilada e dei uns comprimidos de Melhoral (risos). Depois de quatro dias, ela voltou e falou: ‘Não desceu nada!’. Aí, eu disse: Isso aí tá de rosca! Cobrei sessenta reais dela e não desceu nada! Tinha dado água destilada e oito comprimidos de Melhoral! (risos)’
-Depoimento de um dono de farmácia em Brasília, contando como faz aborto‘O Brasil é o quintal do mundo para as indústrias farmacêuticas. Elas fazem coisas do diabo para vender remédios e devem ser controladas severamente pelo governo, porque tudo isso é uma máfia’.
-Declaração atribuída no livro a Fernando Lefévre, professor de Saúde Pública da USP e autor do livro ‘‘O Medicamento como Mercadoria Simbólica’’
‘Produtos vencidos também eram vendidos normalmente. A farmácia tinha até um carimbo especial, que ficava trancado no cofre, para falsificar a data de vencimento. Nessa farmácia também fui incumbido de retirar com gilete a data de vencimento das embalagens de mais de cem unidades de Gardenal (medicamento usado no tratamento de epilepsia) e falsificá-los com carimbo’.
-Frase do autor, sobre seu primeiro emprego, em uma farmácia de Foz do Iguaçu

mockup