Cultura de negação da morte
Prática reconhecida desde 1990 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), especialidade tal qual a oncologia ou a cardiologia na Inglaterra, França e Canadá, no Brasil, os cuidados paliativos ainda funcionam aquém da demanda. Sem uma política nacional definida, poucos hospitais contam com alas específicas para assistir pacientes portadores de doenças que ameaçam a continuidade da vida. Um avanço recente foi a inclusão, pela primeira vez, dos cuidados paliativos no novo Código de Ética Médica, publicado no final de setembro no Diário Oficial da União. O Código proíbe o médico de abandonar o paciente portador de moléstia crônica ou incurável, determina os cuidados paliativos para esses casos, reforça a proibição da eutanásia, mas admite, com consentimento do paciente, a suspensão de ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas.
Segundo o integrante da Câmara Técnica sobre Terminalidade da Vida e Cuidados Paliativos, do Conselho Federal de Medicina (CFM), criada para que o paliativismo se torne um campo de ação médica, José Eduardo Siqueira, o interesse pela medicina paliativa começou tardiamente no Brasil, há cerca de cinco anos. O primeiro centro especializado em cuidados paliativos foi o britânico Saint Christopherffs Hospice, aberto em 1967 pela médica Cicely Mary Saunders. Com o avanço da tecnologia, passamos a viver uma cultura de negação da morte. É uma situação paradoxal. Festejamos o nascimento, mas a morte também integra a trajetória de um indivíduo e deveríamos honrar este momento crucial, observa o cardiologista, que também é professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética.
A aceitação da finitudade também não é tarefa fácil entre a classe médica. A morte é vista como falha. Os médicos enxergam a morte como fracasso. Nós dizemos perdi um paciente como se estivéssemos em uma batalha. Contudo, a medicina tem limites. Prolongar a agonia de um paciente com procedimentos invasivos e inúteis é anular a sua biografia, quando a preocupação seria oferecer um fim de vida digno, argumenta Siqueira.
Na opinião do paliativista Luis Fernando Rodrigues, a mentalidade curativa e tecnicista, vigente nas escolas de Medicina do país, relega a relação médico-paciente a segundo plano, eliminando o sofredor por causa do sofrimento. É comum vermos médicos que não dão ouvidos a quem se queixa de dor, ou a trata com uma medicação equivocada, exemplifica. (C.V)





