Uma Barbie não é tão inofensiva quanto parece. Assim como o culto às magérrimas supermodelos, a boneca mais desejada pelas garotas colabora para divulgar um padrão de beleza que foge à realidade de qualquer país. A consequência é sentida na saúde dos adolescentes. Bombardeados por informações de que o bonito é ser magro, muitos jovens exageram nas dietas e acabam por desenvolver distúrbios alimentares como a anorexia nervosa e a bulimia.
O alerta é da biomédica Janice Madi Hannuch, professora da Unifil, em Londrina. Há dois meses, ela teve um artigo sobre o assunto publicado no site da Universidade de Harvard, nos EUA. Segundo a especialista, a anorexia se caracteriza quando a pessoa diminui gradualmente a ingestão de comida e não volta a comer mesmo quando alertada de que está abaixo do peso.
Já a bulimia é diagnosticada quando o paciente promove verdadeiras ''farras alimentares'', com ingestão exagerada de alimentos, para depois provocar o vômito. As doenças são mais comuns entre adolescentes do sexo feminino, mas o registro é crescente entre garotos, que disfarçam a magreza através do desenvolvimento de músculos nas academias. Os distúrbios causam angústia constante e podem até levar à morte por desnutrição gradual.
Janice esclarece que a anorexia ou a bulimia não têm causa isolada. ''O principal fator desencadeante é a divulgação do modelo anormal de beleza estabelecido pelas super modelos. Uma brasileira, por exemplo, só consegue chegar a um quadril entre 80 e 86 centímetros se estiver desnutrida '', acredita.
Paralelamente ao culto à magreza, a oferta excessiva de fast foods incentiva o consumo exagerado de calorias. Além disso, há uma proliferação de publicações sobre ''dietas milagrosas'' inadequadas. ''Esses três fatores colocam os adolescentes em um ciclo constante de frustração'', comenta Janice.
A booker (profissional que descobre modelos no mercado) Glacy Ponce, 21, do Estúdio Desirée Soares, conviveu com muitas garotas anoréxicas na época em que trabalhou como modelo em São Paulo. ''Morei com uma menina que só comia gelatina e tomava laxante para eliminar o que tinha ingerido'', contou ela, que confessa ter se tornado, na época, neurótica com alimentação. ''Sabia as calorias de tudo. A situação gerava muita angústia e depressão'', comentou.
A booker desistiu da profissão de modelo por não aguentar a pressão pela perda de peso. ''Eu entrava na agência e a dona já estava com a fita métrica na mão'', disse, lembrando que o estúdio onde trabalha atualmente oferece aulas de nutrição, com nutricionista profissional, para incentivar o emagrecimento saudável entre as alunas dos cursos de modelo e manequim.
Glacy mede 1,72 metros e pesa 53 quilos. ''Um médico diria para eu engordar. Já a agência, para me contratar, exigiria que eu perdesse uns dois quilos'', compara. A booker admite que essa cultura à magreza influencia os adolescentes. ''Até para comprar roupa é difícil. Tudo que é mais bacana é exclusivo na numeração 38.''

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