Culpado, até que se prove o contrário
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terça-feira, 20 de março de 2007
Fernanda Borges<br>Reportagem Local 
O dia 22 de fevereiro marcou a vida do morador de Florestópolis (73 km ao norte de Londrina), Valdomiro Aparecido da Silva, 27 anos. Para ele, ao invés da data ser lembrada com alegria, por conta do nascimento do seu terceiro filho, o dia representa o início de uma história ''sem pé nem cabeça'', que segundo ele, só trouxe dor, tristeza e revolta, para toda a família.
Naquela manhã, ao deixar a mulher e o filho recém-nascido no hospital, Valdomiro recebeu a notícia de que a polícia o procurava. Curioso para saber o motivo da busca, o mecânico foi até a delegacia e ao se identificar, foi preso, permanecendo atrás das grades por 14 dias. O delegado de Centenário do Sul, Elisandro de Souza Correia, responsável pelo caso, diz que Valdomiro foi autuado por roubo e que está sendo acusado de fazer parte de uma quadrilha. Segundo ele, a polícia teve subsídios fundamentados numa investigação para conseguir o mandado de prisão, subsídios esses, que segundo ele, não podem ser revelados para não atrapalhar o andamento do caso.
Confuso com todo o acontecimento, Valdomiro, que há três anos trabalha numa oficina mecânica, recebeu apoio do patrão e da família. Ele conta que a polícia procurava um rapaz com o apelido de ''buiú'', que coincidentemente, é o apelido do seu irmão. Mas, segundo o mecânico, tanto ele, quanto seu irmão, são inocentes. ''Sou uma pessoa do bem, nunca tinham me tratado assim, me chamaram de bandido e nem me ouviram. Me fotografaram e até na televisão eu saí. Eu não fazia questão de me esconder porque estive o tempo todo com minha conciência tranquila'', comenta. ''Sofri muito, pensei até em tentar algo contra minha própria vida''.
A mulher dele, que tinha acabado de ganhar bebê, chegou a perder 20 quilos por causa da tensão. ''Eu não aguentava ver ele dentro daquele lugar, sem comer, abatido. Foi uma injustiça que fizeram com a gente. Até hoje sinto que ele não é mais o mesmo, vive fora do ar, como se estivesse em outro planeta'', comenta a dona-de-casa Sandra Cristina Cunha. O mecânico conta ainda que os próprios presos, que dividiam cela com ele, falava para a polícia que não o conheciam.
A juíza substituta da comarca de Centenário do Sul, Luciene Oliveira Vizzotto, explica que a prisão de Valdomiro foi decretada porque haviam ''indícios'' de que ele fosse culpado. ''Nunca temos certeza se a pessoa é ou não culpada. No caso dele, havia requisitos para decretar a prisão. Agora vamos buscar as provas. Como ele também preencheu alguns requisitos, como por exemplo, não ter antecedentes criminais, trabalhar e ter residência fixa, autorizei que ele respondesse o processo em liberdade'', explica.
®MDNM¯Outro caso, parecido com o de Valdomiro, abalou a família de Carlos Fernando Conti Rosa, um jovem de 21 anos, morador de Umuarama (PR). Coincidentemente, ele também passou 14 dias preso, tempo suficiente para desestruturar emocionalmente sua mãe, a assistente administrativo Maria Ponte. ''Foi horrível. Eu recebi a ligação durante a madrugada falando que meu filho estava preso. Eu já estava sofrendo porque ele tinha saído de casa para ir morar com o pai em Ribeirão Preto; quando ouvi isso, passei mal e tive que ser hospitalizada'', lembra.
Carlos foi preso no dia 17 de outubro do ano passado no Terminal Rodoviário de Londrina quando foi visto com um outro rapaz que transportava quase 30 quilos de maconha. A mãe explica que o filho estava chegando de Umuarama e aguardava o ônibus para Ribeirão Preto. ''Ele conheceu o outro rapaz durante a viagem, nunca tinha visto ele na vida e jamais poderia imaginar que o jovem estaria transportando drogas. Na hora que o levaram preso, ele ficou em choque e nem conseguiu se defender'', comenta.
O delegado do 3º Distrito Policial de Londrina, Valdir Fernandes, que na época acompanhou o caso, explica que houve um ''flagrante'' e que Carlos permaneceu preso porque o outro rapaz não confessava ser ''dono'' da droga que transportava. ''O policial encontrou os dois juntos e uma mala com a maconha. Ao questioná-los sobre quem era o dono da bolsa, ninguém dizia nada'', diz.
Na cadeia, Carlos adquiriu bronquite e doença de pele. Em meio a soluços e ainda muito chocada com a situação, a mãe conta que hoje, o filho se encontra bem fisicamente, mas que ainda carrega um grande trauma. ''Nem estudar ele consegue mais. Não sente vontade de fazer nada. Ele mudou, nossa vida mudou. Todo mundo sofreu com tudo isso'', diz a mãe.


