A cozinha é minúscula, assim como as assadeiras e o único fogão que há nela. Ante o fantasma cada vez mais real de anos sem emprego e sem condições de manter o sustento da família, entretanto, esse detalhe se tornou ainda menor a um grupo de moradores que participou ontem e hoje das oficinas de culinária promovidas no Centro de Oficinas da Mulher, no Jardim Leste, Zona Leste de Londrina. Divididos em etapas e especialidades, ao longo do ano, esse e outros cursos são promovidos pela parceria entre as secretarias municipais da Mulher e do Idoso, junto com o Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) e o programa Fome Zero, do Governo Federal.
A assessora técnica da Secretaria da Mulher, Elaine Galvão, explica que as oficinas ofertadas à comunidade há cinco anos, em períodos que variam de um a sete dias já atenderam pelo menos 300 pessoas somente de abril a setembro deste ano, gratuitamente. No caso dos 18 participantes que concluem hoje a oficina de salgados para festas, são disponibilizadas apostilas com receitas testadas e aprovadas pela Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, além dos materiais para a confecção dos pratos.
''Além de eles aprenderem a melhorar a qualidade da alimentação, saem capacitados a desenvolver uma fonte de renda'', afirma Elaine. Para a instrutora do curso, Maria Aparecida Vaz de Castro, a idéia é devolver mão-de-obra capacitada para o mercado de trabalho. ''Muitos desempregados saíram daqui e arranjaram serviço. Não tem desculpa para não tentar, pelo menos: sabedoria não ocupa espaço'', analisa.
E se a meta é reverter estatísticas negativas, o único homem dentre as futuras ''quituteiras de festa'' quer ser um dos primeiros a sair desses números. Casado e há seis anos procurando trabalho, Sebastião José Gonçalves, de 43 anos, não se importa de deixar os cargos que já ocupou um dia pedreiro, açougueiro e arrumador de cargas para voltar a sustentar a casa e a mulher, doente e também desempregada. ''Já sabia fazer de tudo um pouco em casa. Agora que aprendi a fechar os salgadinhos e a temperá-los, é só pensar em como transformá-los em renda'', comentou.
Já Terezinha Aparecida Santos, 40, é otimista quanto ao resultado destes dois dias de aprendizado. ''Pretendo buscar emprego em algum restaurante, pois a situação está difícil'', conta. E dada a situação da família quatro filhos e um marido desempregado , ela faz uma recomendação: ''Tem que ter interesse e força de vontade, como eu. Senão, não se consegue avançar em direção alguma'', ensina. Na mesma condição que ela mas mãe solteira de três filhos , Lúcia de Oliveira Bento, 35, diz que a intenção agora é só ''aperfeiçoar o que aprendeu''. ''A crise está brava, voltei até a estudar para me garantir'', confessou.
E ainda que aparentemente barata, a atividade de salgadeiro confere uma remuneração capaz de ajudar o orçamento doméstico. Donos de bufê consultados pela Folha informaram que, ao preço médio de R$ 7 o cento do salgado para festa, é possível obter pelo menos 30% de lucro a cada R$ 300 gastos no preparo.
As oficinas de culinária têm prosseguimento amanhã e sexta-feira, no período da tarde, desta vez voltadas aos alimentos à base de soja. Segundo a instrutota Maria Aparecida, as receitas são todas aprovadas pela Embrapa Soja, de Londrina.

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