CUIDADOS QUE SALVAM
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2003
Luka Morais<br>Reportagem Local 
Daniel é vizinho de incubadora de Josciane na Unidade de Cuidados Intermediários (UCI) do Hospital Universitário. O menino nasceu sexta-feira, prematuro, resultado de uma gravidez de alto risco. Em breve deve ter alta já que vem reagindo bem. A mãe, que é hipertensa desde os 10 anos de idade, acompanha o menino o tempo todo. Já Josciane deve permanecer mais tempo na unidade. A menina nasceu com um quilo e conseguiu ganhar 250 gramas em 35 dias de internação, apesar de ter tido meningite e pneumonia. Na ficha, uma observação que justifica a gravidade do quadro: a mãe é usuária de crack.
Daniel foi a sexta gestação de Maria Aparecida de Oliveira Santos, 26 anos. Ela tem um filho de oito anos, teve três abortos, e um bebê que nasceu morto. A hipertensão crônica desde os 16 anos tornou a gravidez da dona de casa de Bela Vista do Paraíso um quadro de alto risco. A gestante fez o acompanhamento pré-natal e não vê a hora de poder voltar para casa com o bebê no colo. ''Se Deus quiser vamos embora logo'', diz, segurando a mão de Daniel. ''Ele é bem espertinho'', comenta a mãe.
No ''quarto'' da frente, funciona a UTI neonatal. Logo na entrada o pequeno Gustavo Henrique é acariciado pela mãe, Daiane Soares de Souza, 18 anos. Ele nasceu sexta-feira e com três horas de vida era submetido à cirurgia. O bebê nasceu com as alças intestinais do lado de fora. A mãe, que fez o pré-natal, sabia desde o oitavo mês de gestação que o bebê não poderia vir ao mundo de parto normal e que teria que passar pela cirurgia. ''Ele vai ficar bem'', acredita Daiane.
De acordo com a médica Lígia Ferrari, uma das responsáveis pela UTI neonatal do HU, o recém-nascido permanece totalmente sedado para suportar a dor da cirurgia. E recebe alimentação parenteral, uma alternativa já que não pode ser alimentado via oral. Apesar da gravidade do quadro, a pediatra revela que outro caso semelhante foi atendido pela UTI semanas atrás e a criança teve alta da unidade. ''Hoje, a tecnologia tem contribuído significativamente para a resolução dos casos'', comemora Lígia.
Apesar da fragilidade dos prematuros, as estatísticas da UTI neonatal do HU revelam avanços no atendimento dos casos. De acordo com Lígia Ferrari, 70% dos bebês com peso abaixo de um quilo conseguem sobreviver. Os bons resultados encontram novos desafios a cada dia. A médica lembra que tratamentos de reprodução acabam resultando em casos cada vez mais comuns de trigêmeos e quadrigêmeos, que são considerados prematuros extremos, ou seja com peso ainda mais baixo. ''Um tempo atrás bebês prematuros eram sinônimo de óbito. Hoje não são mais'', comenta a pediatra.
Há nove anos no setor, a auxiliar de enfermagem Maria Helena Mafri, lembra do caso da menina Luciane, que nasceu com 600 gramas e chegou a pesar 415 gramas. ''A menina foi ganhando peso, ficando bonitinha e uns meses depois ligamos para a mãe vir buscá-la'', conta a auxiliar. Antes de desligar o telefone, a mãe, que nem ia mais ver o bebê no hospital, pensando que não sobreviveria, revelou que precisaria antes comprar as roupinhas para o bebê.
''A gente entende os casos de mães que se afastam dos bebês. Elas não acreditam que vão sobreviver e fazem isso para não sofrer'', comenta a médica Lígia Ferrari. Mas para os recém-nascidos, o cuidado da mãe, mesmo através da incubadora, é fundamental. ''Eles são estimulados, reagem e as mães também criam um vínculo maior'', destaca a médica. Segundo ela, os bebês que passam pela UTI neonatal recebem acompanhamento até a adolescência.


