Salário alto, carga horária flexível e uma série de benefícios. Em tempos de vacas magras, quando uma oportunidade dessas aparece todo mundo desconfia. E o bom senso manda mesmo desconfiar. Profissionais, estudantes e desempregados de todo o País, muitos com currículos divulgados na Internet em sites de bolsa de emprego, devem ficar atentos com o que vem sendo chamado de golpe do teste psicológico. Empresas desconhecidas, sem o mínimo de credibilidade de mercado, convocam candidatos a participar de processos seletivos e pagar taxas elevadas. O problema é que geralmente as vagas não existem.
As empresas se identificam como prestadoras de serviço, especializadas em reinserção de profissionais no mercado de trabalho. Um dentista de Ibiporã, que pediu para não ter seu nome divulgado, por muito pouco não caiu no golpe. Semana passada, ele recebeu um telefonema em seu consultório de uma pessoa que disse ser gerente da empresa, com sede em São José do Campos, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. ''Ele me disse que uma empresa de telefonia móvel teve acesso ao meu currículo através de uma pesquisa mercadológica e que o meu dados se enquadravam no perfil dessa empresa'', relatou o dentista, que ligou na redação da Folha para denunciar a falcatrua.
O nome da corporação interessada sempre foi mantido em sigilo durante as sucessivas conversas que teve com o suposto gerente. ''Segundo ele, eles estariam mandando algumas pessoas embora e se tratava de um empresa de telecomunicações de ponta da cidade de Londrina'', relatou. A proposta foi de R$ 4.125,00 mensais por 25 horas, além dos benefícios, como participação de lucros, carro da empresa, gasolina, vale refeição, telefone celular, assistência médica/odontológica e registro em carteira. ''Com uma proposta dessa não tem como não se interessar. Além disso, eu poderia conciliar esse trabalho com o meu atendimento no consultório. Os horários seriam combinados com os diretores da empresa'', relatou. ''Mas desconfiei pelas facilidades e decidi investigar'', prosseguiu.
O dentista ligou na Prefeitura de São José dos Campos, mas não obteve nenhuma informação. Em contato com a delegacia, conversou com uma policial que confirmou a existência do golpe, mas disse que não havia nenhum tipo de provas contra a empresa em questão. ''Ela disse para tomar cuidado caso aceitasse fazer as entrevistas. Decidi procurar na internet e encontrei o relato de pessoas que já caíram no golpe'', contou.
Quando o interessado aceita a proposta é pego de surpresa com as altas taxas referentes a testes psicológicos e perfil comportamental. Um profissional de Curitiba, desempregado havia quatro anos, outra vítima do golpe, teve que pagar R$ 1.650,00 (três cheques de R$ 550,00) pelos custos dos exames. ''Tem outro detalhe. Eles pedem 30% do primeiro e segundo salário como uma espécie de comissão'', disse o dentista.
No site do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) - www.idec.org.br - há diversos testemunhos de vítimas do golpe do teste psicológico. O modo de agir é praticamente o mesmo. Proposta por telefone, salário alto, omissão do nome da empresa interessada e a obrigatoriedade dos testes. No Idec, há denúncias contra outras empresas que agem da mesma maneira, uma delas localizada em Campinas. Até no Orkut site de relacionamento na Internet foi criada uma comunidade de pessoas que caíram ou quase caíram no golpe atraídas por um bom emprego.
''Depois que descobri a verdade, me senti aliviado, mas também aborrecido porque perdi a tarde toda com isso. Espero que as pessoas fiquem alertas para esse golpe. As coisas hoje em dia não caem do céu e não tão fáceis assim'', alertou. As pessoas que se sentirem prejudicadas devem se dirigir até a delegacia mais próxima e denunciar.

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