Cuidado com a 'tensão pré-Natal'
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sábado, 24 de novembro de 2012
Denize Guedes <br> Agência Estado <br> Reportagem Local 
O Natal está nas propagandas, nos enfeites e produtos comercializados nas lojas; e os mais apaixonados pela data já adornaram suas casas. Todo esse clima causa a sensação para muitas pessoas de que o ano já terminou. Em meio à correria do dia a dia, a orientadora de trânsito Adriana Marques, de 40 anos, de Londrina, só agora se deu conta que não conseguiu, por mais uma vez, iniciar o curso técnico de Enfermagem.
O objetivo de Adriana agora é se organizar para que, no ano que vem, consiga começar a concretizar seu sonhado projeto de vida. ''Trabalho o dia todo para ajudar os meus pais e acabei não tendo a chance de começar o curso. Mas, se Deus quiser, no ano que vem vai dar tudo certo'', afirma.
Relatos de projetos frustrados como o da orientadora de trânsito são mais comuns do que se imagina nessa época, se repetem ano a ano e são fazem parte de uma espécie de ''tensão Pré-Natal'' (TPN).
O psicólogo clínico Walter Mattos, membro do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que o Natal é uma data ''desestruturante'' para muitos.
''É uma data simbólica, ligada a fechamento e abertura de ciclo. Essa transição convida as pessoas a fazerem um balanço, o que pode ser agradável para uns e desagradável para outros'', explica o psicólogo. Segundo ele, outro fator é o ideal psíquico de união familiar, muito usado pelo comércio, mas que pode entrar em conflito com a realidade vivida por alguns.
Um terceiro fator é o ''descolamento'' do significado da data. ''É quando você perde de vista a data religiosa e entra na maratona de compra de presentes, de amigos-secretos, de confraternizações do trabalho. Você pensa: 'se eu der algo para as pessoas, se eu for, elas vão gostar de mim'. São processos inconscientes e sofridos.''
Segundo a professora do Departamento de Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Isabel Labate, a decoração antecipada de Natal pode dar a impressão de uma distorção no tempo e agravar ainda mais a TPN.
Onda de pressão
Isabel avalia que o problema incomoda tanto as pessoas, porque além de cobranças como a de Adriana, a TPN traz também a preocupação com outras responsabilidades, como a compra de presentes, lugar onde passar a ceia, encontro com aquele parente de quem não se gosta tanto. ''Tudo em uma data que é emotiva por si só'', diz Isabel. ''Atendo há 30 anos e vejo que, nesta época, os consultórios ficam mais cheios. É quando as pessoas estão mais sensíveis.''
Para a conselheira do Conselho Regional de Psicologia (CRP-SP) Fernanda Lavarello é importante não se deixar levar pela onda de pressão. ''Agir com tranquilidade e separar o que não deu certo, porque não se planejou, daquilo que não deu, porque nem dependia da gente é fundamental.''
Olhando por esse lado, a atendente de comunicação, Viviane Reis, de 33 anos, reconhece que apesar de não ter conseguido um emprego, como tinha planejado este ano, fez um grande esforço para se aprimorar em sua área de atuação e agora está pronta para retomar a busca pelo trabalho. ''Além disso, eu comecei e estou firme na academia. Acho que este foi um bom ano para mim. Só fico um pouco emotiva ao lembrar de outros Natais e por pessoas que não estão mais juntas a mim'', comenta.
Apesar das consequências negativas da tensão desse época, Mattos esclarece que a sensibilidade aflorada pelo espírito natalino pode também ser muito positiva para o indivíduo refletir sobre sua vida e chegar a conclusões importantes. ''As fichas caem e a pessoa passa a se questionar até que ponto fez o que gostaria ou tinha planejado ou simplesmente foi vivendo um dia após o outro e não fez o que deveria ter feito, se boicotando'', acrescenta.
Uma dica importante para o empresário aposentado Américo Vieira, de 85 anos, que reconhece não gostar muito de planejamento. ''Sempre trabalhei muito, no fim de semana, feriados, tudo quanto era data festiva. Nunca pensei muito no que gostaria de fazer no dia seguinte. Fui simplesmente vivendo'', revela. ''Quem sabe agora eu comece a planejar mais e tirar da gaveta alguns projetos para o ano que vem.'' (Colaborou Fernanda Carreira/Reportagem Local)


