Parapapapapapapapapa. Qual não foi a surpresa da diretora Silvia Crusiol, da Escola Vagalume, no Centro de Londrina, quando ouviu seus alunos cantarolarem o Rap das Armas ao serem questionados se já haviam assistido ao filme Tropa de Elite. Espanto porque José e Mateus têm apenas 11 e 9 anos, respectivamente. E porque os próprios estudantes admitiram esperar os pais dormirem para ver televisão ou usar o computador até altas horas da noite.
Que a tevê tornou-se companheira inseparável da criançada não há dúvida. Colega de escola dos meninos, Isabela, 9, contou que já ficou um dia sem dormir só para poder assistir os programas que mais gosta. ''Acordo cedo no sábado e domingo só para ver tevê'', confessou. Entre os preferidos de João Gabriel, 8, Murilo, 11, e Gabriel, 8, estão os desenhos do Cartoon Network, entre eles Dragonball. ''Assisto meu canal, mas quando a minha mãe chega ela muda'', disse Gabriel.
As amigas Ana Pietra, 8, Lavínia, 8, e Maria Clara, 6, preferem a Barbie e as Tweens. Enquanto Daniel, 10, e Arthur, 8, costumam ver Pica-Pau, Bob Esponja e o Gato Félix. ''Eu também gosto de Tom & Jerry'', afirmou Daniel. Entre os garotos mais velhos, Pokemon é unanimidade ''porque tem mais ação'', avaliou José.
Todos admitiram assitir televisão por diversão. Alguns até têm um aparelho e também um computador no quarto. As crianças também revelaram que o controle dos pais é mínimo. ''Eles não controlam porque senão a gente implora'', brincou um dos meninos.
Para a diretora do colégio, o que os alunos assistem em casa reflete diretamente no comportamento deles na sala de aula, seja no relacionamento com os professores ou com os próprios colegas de classe. ''A gente percebe que quando eles vão discutir um problema eles não o fazem de forma pacífica. Tem muita brincadeira de lutinha no pátio'', declarou Silvia Crusiol.
Segundo ela, a escola realiza dinâmicas de grupo para amenizar problemas de comportamento. Toda semana, os educadores trabalham as questões com os alunos em forma de disciplina, na qual são discutidas regras de convívio e preparo para relacionamentos futuros.
''Os pais percebem mas não dão conta porque vivem a correria da vida diária, sempre em busca de recursos financeiros para sobreviver. Cabe à escola colaborar com a família na educação da criança'', opina Silvia. Conforme ela, os pais se vêem perdidos e cada vez mais aceitam ajuda na criação dos filhos.
Para a diretora, a família pouco sabe sobre o que o filho está vendo e precisa tomar mais cuidado. ''Precisamos cuidar dos valores porque ler e escrever é o que as crianças aprendem mais rápido, com mais facilidade.''
Segundo a professora Paola Duarte, os estudantes da Escola Vagalume têm sessões de vídeo semanalmente e sempre são escolhidos desenhos educativos para entreter os alunos. Como funciona em horário integral, o colégio oferece ainda aulas de taekwondo, dança e informática, além de incentivar a brincadeira no período da manhã.
Na Escola Educativa, na Zona Oeste da cidade, a integração entre família e colégio é um trabalho diário, potencializado pelo projeto da escola de pais, que reúne os familiares para conversas ocasionais com os educadores, as quais resultam sempre em troca de experiência.
''Há uma agenda diária usada para a comunicação entre pais e professores, além disso, a orientadora registra todos os passos da criança na escola e no convívio diário para descobrir mudanças de comportamento que passam despercebidas pela família'', explica o psicanalista Ailton Bastos, um dos diretores da Educativa.
''Os pais são chamados para uma conversa e dependendo do caso, a escola recomenda um acompanhamento terapêutico da criança'', completa Bastos. Mas mesmo com tanto cuidado, a tevê ainda influencia o comportamento dos alunos, garante ele.

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