Um brinde com o aguardente Santero e um jantar especial. Os moradores do número 55 da rua Marselha, no jardim Piza, zona sul de Londrina, comemoraram sábado o dia 26 de julho, que marca o início do movimento pela Revolução Comunista de 1959. Com uma placa ‘‘Lar Doce Lar’’ na porta de entrada, a casa de alvenaria acabou se transformando numa ‘‘república’’, que durante um ano vai abrigar cinco doutores cubanos que estão trabalhando em Londrina.
‘‘Lá são três dias de feriado, com ato público, festival e as pessoas se reunindo nos bairros para comemorar com comidas’’, conta Sílvio Vi¤a Brito, 58 anos, professor de Ergonomia e doutor em Ciência Técnica. ‘‘Não poderíamos deixar de lembrar a data.’’
Com doutorado em Informática, Engenharia de Produção e Economia, os professores cubanos foram trazidos pela Universidade Norte do Paraná (Unopar), através de um intercâmbio acadêmico com o Instituto Superior Politécnico José Antonio Echeverria, de Havana. A instituição, segundo explicam os professores, tem um projeto de difusão de conhecimento na área de mestrado e doutorado em informática aplicada para o Mercosul. Só este ano, informam, cerca de 100 profissionais vão atuar fora do país.
Do grupo, que se conhece há mais de 20 anos, Renê Martinez Ba¤os, 51 anos, doutor em Informática, é o que mais percorreu estradas difundindo conhecimentos. Esteve em cinco países. ‘‘A gente ensina mas também aprende muita coisa’’. A começar pela língua. ‘‘Hoje falo o portunhol mas quando cheguei aqui não entendia nada.’’
O mais descontraído do grupo, Renê Ba¤os, lembra o esforço que tinha que fazer para decifrar o que as pessoas diziam com tamanha rapidez. ‘‘Olhava a televisão é só compreendia o Boris Casoy, que fala espanhol’’, diz, numa referência à fala pausada do jornalista do SBT.
Doutor em Informática, Alfredo de Jesus Guerra Hernandez, 45 anos, foi o primeiro a chegar em Londrina, em fevereiro. Conta que, apesar da saudade dos familiares, a semelhança do clima, das músicas, da alimentação e o calor humano dos londrinenses ajudam a amenizar a ausência. Agustin Gutierrez, 52 anos, doutor em Economia, é o mais silencioso do grupo. Foi quem trouxe na bagagem o aguardente Santero. ‘‘Ele bebe de tudo’’, brincam os amigos.
Trabalhando em período integral, os cubanos aproveitam algumas horas vagas para ir às compras. Alguns já renovaram os guarda-roupas com peças coloridas. E adquiriram artigos considerados de luxo no país que enfrenta dura crise econômica, agravada há sete anos quando a ex-União Soviética suspendeu a ajuda econômica a Cuba.
Renê Ba¤os mostra, empolgado, uma chave inglesa. ‘‘Isso é beleza. Maravilha’’, comenta, revelando que tem um carro mas não tem esse tipo de ferramenta, cuja abertura é adaptável a qualquer diâmetro.
Os doutores não revelam o valor dos salários que recebem, mas informam que parte do que ganham é enviado para suas famílias, outra ao Governo, através do Ministério de Ensino Superior, e o restante cobre as despesas, principalmente gastos com alimentação. ‘‘Estamos comendo mais e melhor’’, comentam. Os churrascos aos finais de semana já se tornaram hábito entre os cubanos, que desconheciam a farofa.
Questionados sobre o salário em Cuba, eles dizem que, em média, os doutores recebem o correspondente a R$ 33,00. ‘‘Não dá para fazer comparação. Lá nós temos saúde de graça, universidade gratuita, pagamos 1 centavo para andar de ônibus e a cesta básica custa R$ 1,50’’, enumera Renê Ba¤os.
A doutora Aida Rodrigues, 55 anos, que acaba de chegar ao Brasil, conta que ficou surpresa ao ter que desembolsar no cabeleiro R$ 20,00 para dar um trato nos cabelos. ‘‘Lá eu pago R$ 0,20’’, diz. ‘‘Não tem comparação.’’ A exemplo de seu marido, Sílvio Vinã Brito, 58 anos, que também mora na ‘‘república’’, Aida tem doutorado em Ciência Técnica, o equivalente a Engenharia de Produção. Ela diz: ‘‘O único problema de Cuba é o econômico’’.

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