A diretoria do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM) decidiu ontem que vai pedir a instauração de um novo processo ético contra o médico Décio Basso, acusado de tramar o sequestro da estudante Marta Berssani Chammas, 17 anos, em Maringá. Basso já responde a acusações de onerar o custo do tratamento de pacientes. A solicitação da nova investigação será votada na plenária do conselho na próxima segunda-feira em Curitiba.
O presidente do CRM, Luiz Salim Emed, diz que Basso cometeu falta grave ao usar técnicas médicas no sequestro. Marta e familiares foram sedados quando a residência foi invadida por dois homens na sexta-feira passada. Emed entende que a prova é suficiente para acusar o médico de desrespeito ao artigo 55 do Código de Ética Médica, que trata dos Direitos Humanos. ‘‘Ele (Basso) usou de um conhecimento médico para violentar a integridade das pessoas’’, afirma.
O primeiro processo ético contra Basso foi instaurado no segundo semestre do ano passado. Ele foi acusado de faturar irregularmente em cima de receitas de eficácia duvidosa. Na sindicância presidida pelo médico Kemel Jorge Chammas, que é pai da garota sequestrada, o médico convencia pacientes de que eles necessitavam de tratamento para repor minerais ausentes no organismo. Medicamentos alternativos eram indicados pelo médico.
As fórmulas contendo as substâncias que o paciente deveria tomar, como manganês, zinco, cálcio ou ferro, presentes no corpo humano, eram enviadas para farmácias de manipulação, onde o remédio era produzido. Para provar aos pacientes a falta dos minerais, ele coletava amostras de sangue e cabelos. Segundo Luiz Salim Emed, Basso dizia que o material tinha sido analisado nos Estados Unidos e Japão, uma justificativa para cobrar a mais durante a consulta.
O presidente do CRM diz não ser possível saber se as receitas do médico colocavam os pacientes em risco. Porém, não existe comprovação que os remédios realmente resolviam os problemas. ‘‘A análise desses minerais no sangue e no cabelo, assim como as fórmulas que ele criava, não traziam nenhum benefício ao paciente.’’ Emed alerta que as pessoas precisam se informar muito antes de decidir fazer um tratamento com remédios manipulados. ‘‘A população não pode acreditar, de uma maneira indiscriminada, nessas chamadas medicinas alternativas. É preciso muito cuidado.’’
O médico geriatra Marcos Cabrera, membro e representante da Sociedade Brasileira de Geriatria (SBG), em Londrina, informou ontem que o médico Décio Basso não tem título de especialização ou residência formada como geriatra. Basso atuava e se apresentava na profissão em Maringá como geriatra, especialidade que previne e cuida das doenças ligadas ao envelhecimento. Basso se formou em medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina e, conforme a polícia, o registro do CRM foi obtido no Rio Grande do Sul.
A Polícia de Maringá revelou ontem que Décio Basso já cumpriu no Rio de Janeiro, em 1988, pena de três anos por tráfico de drogas. A polícia espera para hoje a ficha com mais informações sobre a vida pregressa do médico nos estados de Rondônia, Mato Grosso, Santa Catarina e Rio Grande do Sul por onde ele morou. Na casa de Basso, que serviu de cativeiro da estudante, e no consultório, a polícia encontrou cartão de crédito e extratos bancários em nome de Décio Purcini. Segundo a polícia, este nome movimentaria em ‘‘caixa 2’’ as vendas de medicamentos e exames. O médico é divorciado e a ex-mulher e três filhos vivem nos Estados Unidos.

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