Crises podem ajudar a crescer
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segunda-feira, 27 de julho de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Imagine ter uma vida de regalias de todo o tipo e liberdade para ser e ter o que quiser a qualquer hora. Pois agora, imagine perder tudo, num piscar de olhos: a primeira atitude é desacreditar, depois vem o desespero e, por fim, a revolta. Como na trama do horário nobre - em que a garota perde o pai, a mansão, a herança e se alia a um assaltante para se vingar do tio, que para ela foi quem roubou sua vida -, quando um jovem se vê sem o conforto familiar e a segurança financeira a que sempre foi acostumado, a vida se encarrega de revelar o verdadeiro caráter do indivíduo. E se a revolta prevalecer e se transformar em vingança, como na novela, depois pode ser tarde demais para recuperar-se.
No dicionário, crise é todo estado súbito de desequilíbrio ou desajuste emocional. É um estado de incerteza ou declínio, mas que também pode desencadear um momento de decisão, de mudança súbita. Perder um familiar, ir à falência, enfrentar uma doença: ''Seja qual for o infortúnio, os pais precisam permitir que os filhos vivenciem suas próprias perdas'', ensina o psicanalista Ailton Bastos.
Conforme ele, muitos pais poupam os filhos de tudo e não os deixam vivenciar a perda nem elaborar o luto para se preparar para outras perdas que virão. ''Filhos são criados despreparados e com baixa tolerância à frustração.''
Para explicar como os filhos podem ou não ser afetados pela falta de dinheiro dos pais, Bastos faz um paralelo com o universo escolar: ''Se a criança sempre carregou sua própria mochila, respeitando o peso que seu corpo é capaz de levar, está preparada para lidar com as crises'', compara.
Isso significa que os filhos precisam ter noção do que acontece com a família, sem que sejam responsabilizados pelos problemas ou pela resolução da crise. ''Ouvir um não é fundamental para a formação de um sujeito que tolera frustrações e para evitar a onipotência na adolescência'', aponta o psicanalista.
Para ele, as crianças de hoje perderam a ligação afetiva com seus brinquedos, por exemplo, porque os pais presenteiam sempre e sem necessidade. ''Especial, hoje, é consumir, ganhar, sempre aspirar outro presente, mas a criança não transporta essa proatividade para outras áreas da vida.'' O resultado, segundo o psicanalista, são jovens poucos autônomos.
Conforme Bastos, os filhos são resultado do que pai e mãe são, por isso o que os pais fazem influencia tanto ou mais quanto o que dizem. Ele alerta que filhos podem ter reações diferentes ao sofrimento. ''Cada um lida com a perda com os recursos que tem, mas ao mesmo tempo em que o meio pode ser o fator que desencadeia uma crise, ele não justifica sentimentos de vingança, por exemplo'', analisa o especialista. Para Bastos, atos violentos cometidos por jovens que perderam tudo e desejam, de alguma forma, recuperar o que lhes foi tirado, refletem mais uma falha de caráter do que uma revolta momentânea.
Bastos reforça que cada fase da vida tem uma dose de dor, que é importante para o crescimento pessoal, e cada experiência que um pai dá ao filho ao longo da vida ajuda a formar um cidadão. ''Aquilo que seu filho já pode fazer, não faça por ele'', resume o psicanalista.


