Crise no setor madeireiro expulsa brasiguaios
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de julho de 1998
Valmir Denardin Enviado ao Paraguai 
A maior crise já vivida pelo setor madeireiro no Paraguai está contribuindo para expulsar do país os brasiguaios (brasileiros que emigraram há cerca de 20 anos em busca de uma vida melhor). Um dos principais pilares da economia paraguaia, as serrarias da região leste do país estão fechando ou reduzindo a produção e demitindo empregados, a maioria brasiguaios.
Em reportagem especial publicada domingo, a Folha mostrou que, por falta de trabalho, terra e documentação, os brasiguaios estão deixando o Paraguai e retornando ao Brasil, principalmente pela porta de entrada do Paraná. Pelo menos 5 mil deles chegaram ao Estado nos últimos três meses.
Miseráveis, essas famílias se abrigam em favelas de Foz do Iguaçu ou se transformam em sem-terra, engrossando os acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nas regiões Oeste e Noroeste. Segundo dados do governo paraguaio, cerca de 400 mil brasileiros vivem naquele país.
A crise do setor madeireiro tem três causas principais: o desmatamento, a entrada em vigor de uma rígida lei ambiental e até a queda das bolsas de valores do sudeste asiático, principal mercado para o produto paraguaio.
Totalmente coberta de mata com madeira de lei há 20 anos, quando começou o ciclo migratório dos brasiguaios, a região leste do Paraguai tem hoje apenas pequenas reservas florestais. Para evitar o desmatamento total, o governo aprovou no Congresso no início do ano uma rigorosa lei ambiental.
Para derrubar árvores, os donos são obrigados a contratar o trabalho de um engenheiro florestal e pôr em prática um plano de manejo para retirar apenas as toras maiores e preservar as árvores em crescimento. Uma parte de cada reserva precisa ficar intocada. Além disso, a lei deu poderes à Polícia Florestal, à Polícia Nacional e até a juízes de paz para apreender cargas de madeira irregulares.
É muito difícil cumprir todas as exigências e os proprietários estão desmotivados a extrair a madeira, afirma o brasiguaio Izalino Thomé, de 65 anos, dono da maior serraria de San Alberto (município a 88 quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu). A dificuldade em obter matéria-prima está levando as madeireiras a fechar ou diminuir drasticamente a produção.
Desemprego Depois da entrada em vigor da nova lei, três das seis serrarias de San Alberto fecharam, demitindo quase 100 empregados. Mesmo sem fechar, a empresa de Thomé dispensou 48 de seus 60 funcionários. Todos eram brasiguaios. Só estamos trabalhando com o estoque que já tinha. Se a situação não mudar, teremos que parar em, no máximo, dois anos, prevê o empresário.
Além de fatores internos, o setor madeireiro paraguaio é vítima da globalização de mercados. A crise provocada pelas quedas recordes nas bolsas de valores na Ásia fizeram com que países daquela região - principalmente a China - suspendessem a compra de madeira paraguaia. Desde o início da crise, no final do ano passado, as empresas paraguaias pararam de vender o produto aos países asiáticos, que representavam 80% das exportações de madeira paraguaia.


