As declarações ofensivas, preconceituosas e discriminatórias contra funcionários e pacientes do Hospital Universitário (HU) de Londrina, feitas por um grupo de residentes e ex-residente em uma comunidade de internautas, provocaram um ''racha'' na instituição. De um lado, os servidores revoltados com os comentários; de outro, os residentes reclamam que estão sendo tratados com repulsa. No meio do tiro cruzado ficam os pacientes.
A cada dia a crise ganha maiores proporções: desde a última quarta-feira, está circulando um abaixo-assinado entre os funcionários que deverá ser remetido ao Ministério Público Federal. A Reitoria da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e o Conselho Regional de Medicina (CRM) abriram sindicâncias para apurar as responsabilidades e ontem o Movimento Negro e vereadores pediram a expulsão do grupo de residentes (leia nesta página).
Há 15 anos no HU, a auxiliar de enfermagem Maria Magnólia de Paula Souza se ofendeu principalmente com a maneira como um dos residentes envolvidos se referiu às gestantes. ''Isso foi lamentável. Chamar as grávidas de 'prenhas nojentas' foi demais. Eu não estou conseguindo nem olhar para eles (os residentes). Só faço o estritamento necessário para não prejudicar os pacientes''.
Uma outra funcionária criticou que uma das residentes envolvidas teria comentado com amigos ''que não estava preocupada, porque não ia dar em nada'': ''ela contou que seu pai disse que não se preocupasse porque tudo ia acabar em distribuição de cestas básicas para alguns pobres''. ''Isso nos faz pensar que tipo de profissionais que estamos formando. Um médico com ética e decência ou um sujeito sem escrúpulos?'', questionou o chefe de divisão, Daniel José de Carvalho. Os funcionários fizeram um abaixo-assinado, que já conta com mais de 700 assinaturas, a ser entregue ao Ministério Público Federal, à Ouvidoria do Estado e à Reitoria da UEL.
Por seu lado, o estudante Dan Janos Nakamura, residente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediu para que a revolta não se generalize para os residentes que não estão envolvidos. ''Gerou um clima de guerra. Não somos contra a revolta dos funcionários, mas temos que ter cuidado com o contra-ataque porque o paciente não pode sofrer as consequências''.
O presidente da Associação dos Médicos Residentes de Londrina (Amerel), Marcelo Cichocki, ponderou que apenas uma minoria de 10 residentes num total de 150 estariam envolvidos. Os outros 10 que emitiram opiniões ofensivas contra os funcionários seriam ex-residentes que hoje já exercem a medicina. Ontem, a Amerel emitiu uma nota interna repudiando a atitude do grupo e pedindo para que o clima de revolta não prejudique o atendimento aos pacientes.
A Reitoria da UEL instaurou comissão de sindicância. Ao final das investigações, a instituição poderá abrir processo administrativo que pode resultar desde uma simples advertência até a expulsão da Universidade. O procurador jurídico da UEL, Marcos Fahur, explicou que a sindicância ''se destina a identificar e enquadrar se o comportamento contituiu transgressão do dever jurídico''. Fahur qualificou as opiniões expressadas de ''precipitadas, intempestivas e despropositadas''.
O vice-coordenador do colegiado de Medicina, Ascêncio Garcia Lopes Júnior, lembrou que a reformulação recente do currículo do curso prega justamente o contrário, ou seja, a humanização no atendimento e o trabalho interdisciplinar. ''O colegiado é totalmente contrário ao que eles fizeram e as opiniões deles não refletem nada do que pensamos da profissão. Os envolvidos devem ser punidos conforme a lei''. Ele ressaltou que os que são médicos já foram denunciados ao CRM e os estudantes à Reitoria.

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