Uma população estimada de 56 mil moradores do litoral do Paraná está exposta a uma situação preocupante no atendimento público de saúde. Em Matinhos, o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes conta apenas com dois médicos e das sete equipes de saúde da família, apenas três estão atuando.
Já em Guaratuba uma parte dos médicos da cidade deixou de atender pela prefeitura. Empresas deixaram de entregar remédios e suprimentos hospitalares. E pelo menos um laboratório deixou de realizar exames. Tudo por causa de atrasos no pagamento. Matinhos e Guaratuba são a segunda e a terceira maiores cidades do Litoral.
No último dia 29 de outubro uma equipe da 1ª Regional da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) esteve fazendo um levantamento em ambos os municípios para averiguar informações sobre problemas nas duas cidades. Para Paulo Zanicotti, diretor da regional, a situação dos dois municípios preocupa principalmente por conta da proximidade da Operação Verão, que começa dia 19 de dezembro. O diretor avalia que Matinhos apresenta os problemas mais graves. "Estamos fazendo um levantamento das dificuldades de lá", adianta.
Uma técnica em enfermagem do Posto de Saúde do Centro de Matinhos, que não quis se identificar, informou à reportagem da FOLHA que a carga horária de todos os profissionais de saúde da cidade foi reduzida de 8 para 6 horas diárias há uma semana. "Retiraram também nossa gratificação PSF (Programa Saúde da Família)", conta. A informação foi confirmada pela 1ª Regional de Saúde e por funcionários de outros postos de saúde de Matinhos.
Outra dificuldade, relata a enfermeira, é com o transporte de pacientes. Não há mais carros disponíveis para os postos. "Quando a situação é grave, o que nos resta é pedir ao Siate (Sistema Integrado de Atendimento ao Trauma e Emergência)", revela. No posto Sertãozinho, apenas um médico faz o atendimento a população, mas está afastado por problemas de saúde. Uma funcionária do posto, que também não quis se identificar, confirmou que o médico afastado atendia só durante as manhãs. Procurado pela reportagem, o secretário da Saúde de Matinhos, Jeferson Azevedo, informou que não estava autorizado a comentar o assunto.
Em Guaratuba os postos de saúde continuam funcionando, mas faltam médicos. Com salários atrasados há quatro meses, alguns profissionais deixaram de atender a prefeitura, como é o caso do ortopedista Francisco Vieira. "Pedi demissão há uma semana", conta. O médico diz que se demitiu porque avaliou que a situação dele e dos colegas era insustentável.
Nos próximos dias os odontologistas da cidade devem seguir caminho semelhante e parar de trabalhar. "Estamos sem salário há dois meses", conta a dentista Rosana Arnulf. Dos dois laboratórios que atendem a cidade, um já deixou de realizar exames para a prefeitura e outro estuda medida semelhante. "Estou agoniada com a situação de outros profissionais e fornecedores da prefeitura e decidi suspender o atendimento", explica a bioquímica responsável pelo laboratório Lanaclin, Ana Claudia Faita.
Já o bioquímico Luiz Afonso Túlio, do Newlab, continua a realizar exames laboratoriais para a prefeitura. "Por enquanto nosso pagamento de setembro está apenas alguns dias atrasado", informa. Apesar de manter o atendimento, Túlio observa que a partir de setembro a própria prefeitura reduziu o número de autorizações para exame. "Caiu pela metade. E este mês ainda não recebemos a liberação das cotas do mês", relata.
O bioquímico diz que caso a situação não se regularize, o atendimento pode ser restringido. "Não podemos parar de atender o Pronto-Socorro, mas se a situação piorar talvez seja necessário deixar de realizar exames para os postos de saúde", prevê. "O que nos incomoda é não ter nenhuma orientação da prefeitura sobre como proceder nessa situação", reclama.

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