Crise japonesa coloca em xeque o sonho de fortuna de dekassegui
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terça-feira, 21 de julho de 1998
Andrea Vendramini 
A crise econômica japonesa, agravada neste ano, está dificultando a vida dos dekasseguis do Paraná que viajaram para o país de seus antepassados. Eles tinham o sonho de voltar ao Brasil com dinheiro suficiente para montar o próprio negócio e garantir uma vida mais estável para a família. Mas a situação está mudando. Segundo o vereador Rui Hara (PFL), presidente da Associaçcão de Apoio aos Dekasseguis, em Curitiba, a soma de R$ 500 milhões enviada ao Paraná anualmente por cerca de 30 mil dekasseguis deve cair pela metade em 1998.
Segundo Hara, estatísticas apontam que o índice de desemprego no Japão é de 4,1%, mas a taxa sobe para 12,2% entre os dekasseguis. Ele explicou que o agravamento da crise fez as empresas não só demitirem trabalhadores brasileiros e japoneses, mas também cortarem as horas extras, que garantiam salários atraentes. Hara afirmou que mesmo enfrentando dificuldades - muitos dekasseguis estão sem emprego e desabrigados -, parte dos trabalhadores brasileiros não quer voltar ao Paraná. Eles têm esperança de que a situação vai melhorar e não querem voltar sem realizar um sonho, disse. O orgulho pessoal, a expectativa da família e a sensação de fracasso são outros fatores que fazem com que muitos ainda desejem ficar.
Os que querem retornar não têm dinheiro para pagar a passagem ou estão impedidos por questões burocráticas. O advogado Hélio Bukei Kushioyada - que voltou ao Brasil em março deste ano, depois de trabalhar três anos prestando assessoria jurídica aos dekasseguis no Japão - disse que recebe cinco telefonemas por semana de dekasseguis que não conseguem voltar. Kushioyada pede apoio ao governo do Estado para que ele vá ao Japão cadastar e tentar trazer cerca de 100 pessoas.
O advogado afirmou que 2,5 mil dekasseguis estão desempregados no Japão e cerca de 250 desabrigados ou na casa de parentes e amigos. Muitos estão presos e incomunicáveis. Ele criticou os consulados e embaixadas que representam o Brasil e o Japão por não oferecerem qualquer atendimento aos dekasseguis.
Assistência - Mesmo antes da crise, de acordo com Hara, a tentativa de trabalhar no Japão para fazer fortuna já era uma ilusão. Menos de 1% dos que voltaram ao Brasil com quantias consideráveis conseguiram viver com o dinheiro recebido no Japão com muito trabalho. Depois de permanecer em média cinco anos lá, a maioria dos descendentes gasta o que ganhou em cerca de um ano. Para orientar os dekasseguis do Paraná, membros da comunidade japonesa no Estado fundaram, em agosto de 1997, a Associação de Apoio ao Dekassegui. A entidade, com a ajuda do Sebrae, orienta como aplicar o dinheiro. Psicólogos e psiquiatras também ficam à disposição para ajudar a superar a crise do regresso, comum entre os dekasseguis que voltam ao Brasil e caracterizada por sintomas como depressão e tendência ao isolamento.


