Carmem Murara
De Curitiba
Os banqueiros do jogo do bicho que atuam em Curitiba formaram uma espécie de cooperativa, que eles preferem chamar de sociedade, para poder trabalhar com maiores margens de lucro. O esquema começou tímido há três anos, mas só agora toma forma e se torna mais conhecido entre apontadores, casas lotéricas e apostadores. Os 12 principais banqueiros, que juntos controlam mais de 90% do jogo, têm funcionários em comum e atuam com a mesma estrutura, o que garante melhor rendimento ao final do mês.
‘‘Na rua por onde passavam três motoqueiros para recolher as apostas, hoje só passa um e pega os volantes para todos os banqueiros. Isso é economia’’, explica um dos bicheiros entrevistados pela Folha, cujo nome é mantido em segredo pelo fato de o jogo ser ilegal. Ele diz que a redução de custos veio quando perceberam que havia queda acentuada nas apostas.
O banqueiro afirma que a redução foi de 70% no volume de apostas desde 94. ‘‘Os velhos apostadores estão morrendo e os jovens não se interessam’’, lamenta. Com 61 anos de idade, sendo 43 dedicados ao jogo, ele diz que há uma concorrência desigual com as novas loterias, que podem investir em publicidade.
A cooperativa conta com o apoio dos donos das casas lotéricas, que se sentem mais seguros. ‘‘Se der um prêmio alto é certeza absoluta que eles vão pagar, pois um ajuda o outro’’, conta a dona de uma casa lotérica do bairro do Boqueirão.
A sociedade dos bicheiros emprega hoje 413 pessoas, que trabalham para todos, numa mesma sede. Eles têm todo um sistema informatizado para apuração e divulgação de resultados. ‘‘O esquema funciona como uma Unimed do jogo do bicho’’, compara um ex-bicheiro, que até hoje mantém estreitas relações com os demais banqueiros. Ele garante que todos os dias são pagos prêmios que equivalem à metade do que é apostado.
Os bicheiros que controlam a cidade são 12, mas eles já foram cerca de 40 há 10 anos. Segundo o banqueiro, a maioria deixou a atividade após sucessivas perseguições policiais. Ele mesmo já perdeu as contas de quantas vezes foi levado para a delegacia. Por três vezes, ele ficou preso, totalizando 60 dias. Em cada vez que era detido jurava para si mesmo que abandonaria a contravenção. ‘‘É uma cachaça que sempre temos vontade de tomar. Isso aqui passa de pai para filho e não tem como sair’’, admite.

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