A crise econômica que atinge o País está provocando na região de Maringá um fenômeno há anos já observado em alguns municípios do Estado de Minas Gerais e do próprio Paraná: a debandada de trabalhadores desempregados e de pequenos empresários para os Estados Unidos.
Atraídos por publicações que mostram o presidente norte-americano Bill Clinton fortalecido pela política de criação de empregos, moradores da região estão se desfazendo de bens para cobrir as despesas de viagem, com a esperança de encontrar ocupações classificadas nos Estados Unidos como de subemprego, como de serviços de limpeza, garçonete e baby-sitter, entre outros.
Segundo o agente de viagens da agência Soleneve, Paulo Sérgio de Oliveira, o número de pessoas de Maringá e região que está indo para os Estados Unidos aumentou em até 60% em relação ao mesmo período do ano passado. Ele explica que, normalmente, a demanda é maior nos meses de dezembro e janeiro, mas há um refluxo a partir de fevereiro. Esta situação não está ocorrendo este ano.
Marcos NegriniA demanda por viagens aos Estados Unidos continua alta, mas o perfil dos passageiros é diferente. Conforme Oliveira, a maioria das pessoas é de baixa renda e tem entre 18 anos e 40 anos. Elas entram nos Estados Unidos como turistas. São os que os agentes da Polícia Federal chamam de ‘‘falsos turistas’’.
Oliveira lembra que o êxodo para os Estados Unidos é um fenômeno parecido com o ocorrido no início da década de 90 - entre 1992 e 1993 - quando muitos brasileiros deixaram o país em busca de uma vida melhor na Europa. Os países alvos naquela época eram Portugal e Espanha. Como os brasileiros não podem relevar a intenção de ficar nos Estados Unidos para trabalhar, todos afirmam que vão a turismo para Nova York e Miami, de onde, conforme informações de agentes de viagens, a maioria segue para outras cidades.
A sócia proprietária da agência Ícaro Turismo, Dora Varago, diz que o aumento por procura de passagens para os Estados Unidos é de 80% desde a desvalorização do Real. ‘‘Tem dia que atendemos de três a quatro pessoas. É muito, se for considerado que as outras agências também estão registrando grande movimento’’.
Dora afirma que o êxodo para o Estados Unidos nos últimos meses é até cinco vezes maior do que o registrado para a Europa, entre 1992 e 1993. Segundo ela, além de maringaenses, há muitos moradores de municípios da região, principalmente de Paranavaí, Nova Esperança e Mandaguari.
A agente de viagem revela que o interesse de trabalhar nos Estados Unidos fica evidente em algumas pessoas que procuram as agência, porque, muitas vezes, elas acabam se desfazendo de bens nas cidades onde moram ou se desligando do trabalho. ‘‘Isso até prejudica, porque fica mais difícil conseguir visto americano quando a pessoa não tem um emprego ou um estabelecimento comercial para comprovar o interesse de voltar para o Brasil’’, explica.
Conforme a assessora de comunicação da Polícia Federal em Maringá, Gelvanes Bakai Alsen, desde o início do ano a emissão de passaportes ficou acima da média. Segundo ela, nos últimos dois meses cerca de 60 passaportes são expedidos diariamente, o que corresponde ao dobro do mesmo período do ano passado. Aparentemente, segundo a assessora, as pessoas que retiram o passaporte para turismo nos Estados Unidos apresentam contradições. ‘‘Pela simplicidade do linguajar, das roupas e outros aspectos, parecem pessoas muito simples, que não teriam condições de fazer turismo nos Estados Unidos’’, diz.
O êxodo para os Estados Unidos já começa a despertar a atenção das autoridades americanas. Há cerca de um mês, 12 brasileiros que tentavam entrar como ‘‘falsos turistas’’ nos Estados Unidos foram barrados e tiveram que voltar para o Brasil no vôo seguinte. Entre eles, quatro são paranaenses - três do município de Tapejara e um de Florai (44 quilômetros de Maringá).
De acordo com o delegado-chefe da Polícia Marítima, Aérea e Fronteiras de São Paulo, Marco Antonio Veronezze, a deportação de um ou dois brasileiros é comum. ‘‘Normalmente ocorre em número maior quando os passageiros são de Minas Gerais, Estado de onde partem muitas pessoas para ficarem clandestinamente nos Estados Unidos’’, afirma.

mockup