Crise dos sacoleiros esvazia comércio à margem da BR-277
Valmir Denardin
De Foz do Iguaçu
Fotos Ney de Souza
VIAGEM SOLITÁRIA Ônibus de sacoleiros passa na BR-277, em frente ao Centro de Atendimento ao Turista, em Céu Azul: obras paradas
Movimento na borracharia de Lotário Krein teve queda de 50% com fechamento de churrascaria
Cão pastor alemão guarda a porta principal da Churrascaria Patussi, em Medianeira
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Obra parada no Centro de Atendimento ao Turista, em Céu Azul (acima, à esquerda); mato toma conta de área próxima à churrascaria, em Matelândia (à direita); churrascaria fechada em Santa Tereza do Oeste (ao lado, à esquerda)
Plaza Hotel, em Medianeira: letreiro incompleto, portas cerradas
Preço defasado: painel lembra os tempos dourados dos sacoleiros
Parte da estrutura do Centro de Atendimento ao Turista, em Céu Azul: destruída
Sozinho, amarrado com correntes, um feroz pastor alemão capa preta guarda a entrada principal de uma churrascaria que já serviu até 600 refeições por dia. Placas de madeira protegem da depredação portas e janelas de vidro. O mato, que não pára de crescer, já esconde o nome do estabelecimento Patussi e seu eslogam: churrasco de patrão. Uma placa testemunha o preço da última refeição servida ali: R$ 6,00.
Esse não é o único, mas é um dos mais chocantes retratos da derrocada de um fabuloso complexo de alimentação e serviços criado a partir da metade da década de 80 no trecho da BR-277, entre Cascavel e Foz do Iguaçu, para atender os sacoleiros. Com o fim do ciclo econômico do turismo de compras em Ciudad del Este, no Paraguai, restaurantes e lanchonetes e estruturas para ônibus fecham as portas em série.
Até o final deste ano, a previsão é de que 1 milhão de sacoleiros cruzem a região em direção ao Paraguai. Esse número representa apenas 23,8% do registrado na época dourada do turismo de compras. Em 1994, 4,2 milhões de sacoleiros viajaram à fronteira para abastecer seus clientes em todas as regiões do Brasil com produtos importados.
A reportagem da Folha percorreu os 140 quilômetros da BR-277 entre Foz e Cascavel a única ligação rodoviária da fronteira com o restante do País. Cinco das seis churrascarias de grande porte desse trajeto já estão fechadas. Um complexo integrado de atendimento a turistas, com área construída de 14 mil metros quadrados, foi abandonada antes da conclusão das obras.
Somados, os restaurantes fechados tinham capacidade de atender 3,5 mil clientes simultaneamente. Deixaram pelo menos 250 trabalhadores desempregados. A maioria dessas pessoas ainda não conseguiu ontra ocupação.
A Churrascaria Patussi, localizada em Medianeira (65 km a nordeste de Foz do Iguaçu), fechou as portas em maio do ano passado, após ter sua falência decretada. Essa situação foi gerada pela queda do movimento, que começou em 1996 e atingiu 70% em 98, diz o proprietário, Marcos Patussi, de 50 anos.
Equipamentos frigoríficos, mesas e cadeiras continuam no prédio de 3 mil metros quadrados, com capacidade para atender mil pessoas simultaneamente. A churrascaria, aberta em 1990, chegou a empregar 40 funcionários.
O empresário Carlos Falkembach, de 47 anos, hoje comemora o fato de ter conseguido fechar a Churrascaria A Costela, em Matelândia (80 km a nordeste de Foz do Iguaçu), antes da falência. Pioneiro na região no atendimento a sacoleiros, o restaurante foi aberto em 1985. Em três salões, com capacidade total para 1,3 mil pessoas, passou a servir café da manhã, almoço e jantar.
Nos melhores anos, entre 1985 e 94, Falkembach chegou a atender até 3 mil clientes aos sábados dia de maior fluxo de sacoleiros. Nesse período, ele empregou 120 funcionários. Em outubro do ano passado, quando o quadro funcional estava reduzido a 18 pessoas, o empresário fechou o estabelecimento.
Localizado pela Folha em Guarapari (ES) balneário famoso pela propriedade medicinal de suas areias monasíticas , onde montou um novo restaurante, Falkembach diz que está tentando vender a churrascaria de Matelândia, que permanece com todos os equipamentos originais. Apesar de o preço pedido R$ 450 mil estar abaixo dos R$ 600 mil já investidos no estabelecimento, ainda não apareceu comprador.
Por situação semelhante passa Edson Debona, de 53 anos, dono de um salão de 1,2 mil metros quadrados, à margem da BR-277, também em Matelândia, onde, durante seis anos, funcionou a Churrascaria Espeto de Ouro. Depois que o inquilino foi embora, há dois anos, o empresário tenta alugar, por cerca de R$ 1,5 mil, o salão de 1,2 mil metros quadrados. Sem sucesso.
Nessa investida, Debona tem um torcedor especial: o borracheiro Lotário Krein, de 42 anos. Há três anos, Krein possui uma pequena borracharia ao lado da antiga churrascaria. Com o fechamento, ele viu seu movimento cair pela metade. Bom era o tempo que não tinha lugar para estacionar ônibus aqui na frente, recorda Krein, apontando para o estacionamento, hoje vazio e tomado pelo capim.





