Crise dos 25 assombra os jovens
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Ao se formar em Odontologia, há dois anos, Janaína Karin Carolina Alcântara de Lima, de 28 anos, não montou um consultório, mas um salão de beleza. E este não foi a única reviravolta da jovem: antes de optar pelo curso, ela prestou vestibular para Engenharia de Alimentos, Administração, Turismo e Fonoaudiologia. Sua história ilustra uma tendência vista em milhões de jovens nesta mesma faixa etária, que fazem várias tentativas antes de descobrir o que querem na vida. É a chamada crise dos 25, que até já se tornou tema de livro e de filmes.
Diferentemente da crise dos 40, caracterizada por uma fase em que a pessoa, já madura, questiona o rumo dado à vida e se lamenta de não ter conseguido realizar os sonhos de juventude, na crise dos 25 as angústias surgem quando ela se vê diante de um mundo de opções atraentes. É preciso decidir entre investir na compra de um carro, viajar para o Exterior, casar, curtir a vida de solteiro, fazer MBA ou prolongar a adolescência, pulando de curso em curso na universidade, por exemplo.
Janaína, como muitos outros jovens, teve a retaguarda da família para bancar uma opção cara de graduação. Ela não se imaginava atendendo em um consultório, mas concluiu os estudos na área por ter gostado do curso. Segundo ela, a identificação com a vida profissional só veio ao optar pelas escovas e secadores. ''Me encontrei nesta vida agitada do salão'', diz a jovem, que nasceu em uma família de cabeleireiros. ''Meu avô era barbeiro, meu pai e quatro tios meus também trabalham na área'', conta. Embora satisfeita, Janaína não pretende sossegar: ''Vou começar um curso semi-presencial de Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM)''.
O termo ''Quarterlife Crisis'', ou crise de um quarto de século (tradução livre), criado no começo do século 21 nos Estados Unidos, foi popularizado no livro ''A Crise dos 25'', de Alexandra Robbins e Abby Wilner. A situação também aparece em filmes como ''Encontros e Desencontros'', e na música ''Why Georgia'', de John Meyer. Todos tentam traduzir essa transição para a vida adulta.
Uma transição que há pouco mais de 30 anos era mais fácil, segundo a psicóloga Denise Pará Diniz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A geração dos pais da garotada de hoje tinha menos escolhas. A trajetória era mais definida: conseguir um emprego que desse estabilidade necessária para o casamento e os filhos. ''A pessoa ia meio que no automático'', diz Denise.
Hoje as opções são bem diferentes. ''Os jovens adultos do século 21 cresceram em um ambiente infinitamente mais complexo e tornaram-se bem mais exigentes'', argumentam os autores no livro.
Nesse meio, o casamento não é visto como algo vitalício. Ter filhos vem depois da estabilização na carreira e da realização de sonhos como conhecer o mundo e curtir a vida. E a carreira não é apenas a forma de obter dinheiro, mas também de satisfação pessoal.
A psicóloga Lulli Milman, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), especialista no atendimento a jovens, diz que esta geração também enfrenta a pressão por uma vida perfeita. ''No mundo contemporâneo, é preciso ter tudo. Tudo deve ser maravilhoso, senão a pessoa é vista e se vê como uma fracassada.''
De quem é a culpa? Os pais teriam falhado ao oferecer de tudo aos filhos e sem exigir algo em troca? Pagar MBA ou as férias, em si, não é ruim. ''Batalhamos para dar aos nossos filhos coisas que os nossos pais não deram'', diz Denise, mãe de um rapaz de 25 anos. ''Mas os nossos pais fizeram algo que muitos pais não fazem hoje: conversar com os filhos sobre a realidade.'' Ao contrário, apelam à superproteção, o que posterga problemas que um dia virão. Como resultado, os jovens estariam relutando em assumir responsabilidades. (Com Agência Estado)


