Crise deixa paranaense meio desligado
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domingo, 14 de fevereiro de 1999
Lúcio Horta 
Enquanto dirigia, o motorista de táxi J.S., 54 anos, pensava nas contas que estavam para vencer. Depois da bagunça na economia, provocada pela liberação do câmbio - quebra do real, alta do dólar, insegurança no mercado financeiro -, ele havia concluído que a situação em 1999 não seria das melhores. Portanto, era hora de puxar o freio no orçamento doméstico e economizar. O taxista esquentou tanto a cabeça que nem percebeu o redutor eletrônico de velocidade, no centro de Londrina. O pior é que sempre passo por aquele local. Não sei como foi me acontecer isto, lamenta. Resultado: J. S. levou multa e piorou a situação em casa.
O caso do taxista londrinense reflete uma situação comum entre os brasileiros: quando explode a crise, o cidadão pensa no emprego, nas contas, na queda do poder aquisitivo... E, de tão preocupado, esquece-se dos detalhes do dia-a-dia, fica mais distraído. Em períodos de crise, a procura pela clínica (por causa do stress) normalmente cresce. E com stress o indivíduo sempre fica mais distraído, comenta a psicóloga Eliane Belloni, docente do curso de Psicologia no Cesulon e membro da diretoria da Associação Regional de Medicina Psicossomática de Londrina.
Exemplos de distração não faltam. No final do ano passado, em meio às turbulências do mercado financeiro que antecediam a crise cambial, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, trancou o carro com as chaves dentro. Quando percebeu, foi um auê: ele teve que chamar um profissional para arrombar o automóvel. A história foi relatada na coluna bem-humorada do jornalista José Simão, da Folha de São Paulo.
O vereador e dirigente do Londrina Esporte Clube, Célio Guergoletto (PMDB), não fez por menos: em outubro, vestiu pela manhã pés de sapatos diferentes (um com fivela, outro sem) e passou o dia inteiro assim. Até que foi flagrado, numa reunião que definiria o futuro do clube, por um repórter de rádio. Na época estava com muita atividade e foi o excesso de preocupação que fez isso acontecer, justifica o vereador. Normalmente sou meio desligado, mas não a ponto de trocar de sapato!
Eliane Belloni explica que qualquer incidente causado por distração, como os de Pedro Parente ou de Célio Guergoletto, tem sempre o mesmo princípio: a pessoa divide a atenção daquilo que está fazendo com outros problemas mal resolvidos. Ou então com preocupações relativas ao futuro. É a atenção flutuante, que não é fixa em determinado estímulo do ambiente. Ou seja, o estímulo do momento é irrelevante diante de situações que não foram solucionadas pelo indivíduo, diz.
Em meios às crises financeiras, explica Eliane, as pessoas se preocupam mais com o futuro e administram mal o presente. E o stress é um dos primeiros sintomas desse período. O indivíduo tem alteração de memória. Às vezes ele não lembra o que aconteceu de manhã. É um mecanismo de defesa: o organismo o faz esquecer alguma coisa porque tem muita coisa para ser lembrada, aponta.
Além da crise, a psicóloga Eliane Belloni diz que outros fatores também podem contribuir para que o indivíduo se torne distraído. A utilização de drogas que alteram o sistema nervoso central (medicamentos ou drogas), por exemplo, afeta a memória e deixa a pessoa mais distraída. É a distração induzida.
Problemas pontuais, geralmente de fundo emocional, também podem tirar o sono da pessoa e deixá-la mais distraída. Enquanto esse problema não está equacionado, o indivíduo não consegue parar de pensar nele e acaba desviando a atenção das outras coisas. Daí a furar o sinal ou levar um tropeção no meio-fio é um pulo. Ela conversa com uma pessoa pensando em outra coisa. Ficam preocupadas com o futuro ou com o passado e esquecem o presente, observa.
Eliane Belloni lembra também que há pessoas com um padrão de personalidade muito específico e que parecem estar sempre no mundo da lua. São pessoas muito tensas. Percebem o mundo de forma vaga e têm dificuldade para se concentrar, observa a psicóloga. Ela informa ainda que um estudo feito na Inglaterra, dentro do atendimento de fraturados, confirmou a hipótese.
Para identificar alguém com essas características, a psicóloga dá uma dica: perguntar quantas vezes a pessoa quebrou algum osso do corpo durante a vida. Se foram várias durante vários anos, a chance de fazer parte do grupo é grande. A frequência pode indicar se a pessoa é ou não o que se chama popularmente de desastrado, aponta. As distrações podem também ter consequências mais sérias do que precisar de um chaveiro: Em algumas mortes por acidente, percebe-se que a vítima passou anteriormente por outros acidentes antes do fatal, diz Eliane Belloni.
O primeiro passo para tentar ser menos distraído, aponta a psicóloga, é tentar identificar o tipo de distração - consumidores de substâncias psicoativas, problemas pontuais, estressados etc. Depois, procurar ajuda profissional, para fazer uma leitura adequada da própria vida. Outra dica é a pessoa tentar ver o que é mais importante na vida dela naquele momento e estabelecer prioridades, disciplinar o dia. Na medida em que a pessoa se disciplina e seleciona prioridades, não se perde no meio de tantas coisas para fazer. Fica mais atento e corre menos riscos.


