Edinelson Alves
De Londrina
Especial para a Folha
A desvalorização do real em janeiro deste ano foi o golpe de misericórdia nos negócios instalados nos Estados Unidos e que dependiam diretamente dos turistas e investidores brasileiros. O Downtown de Miami e a International Drive de Orlando, duas áreas comerciais que simbolizavam a invasão brasileira naquelas duas grandes cidades da Flórida, vivem hoje um período de falência e desolação.
A grande diferença é que muitos brasileiros que tinham comércio em Miami estão fugindo para o Brasil, enquanto os de Orlando ainda tentam vender seus negócios para diminuir os prejuízos. Pequenos investidores que até o final do ano passado tinham seus próprios negócios estão trabalhando como motoristas de carros de locadoras ou limpando casas, último recurso antes da quase inevitável volta para o Brasil.
O londrinense Sérgio Carvalho Souza, proprietário da transportadora H24, que há mais de 7 anos acompanha a realidade comercial de Miami, afirma que nunca tinha visto uma crise tão profunda entre os brasileiros que vivem no Sul da Flórida. ‘‘Os comerciantes não estão nem vendendo seus negócios. Simplesmente estão fechando as portas, abandonando casas e carros (financiados) e deixando dívidas astronômicas para trás. Das mais de 300 transportadoras (fora o grupo de autônomos que atuavam dentro de cada empresa) instaladas para exportar mercadoria para o Brasil, restaram cerca de 20. Não sei ao certo quantas lojas ou pontos comerciais de brasileiros existiam no Downtown de Miami, mas certamente eram perto de 400, desses não restaram 25%’’, estima.
Sérgio confessa estar surpreso, tal a rapidez com que a crise brasileira derrubou comerciantes que até há poucos meses viviam o perfeito sonho americano. ‘‘São dezenas de casos de falências, mas cada um tem a sua história. Tenho um conhecido que era a imagem do sucesso. Morava bem, tinha bons carros (ele um Mercedes, a mulher um BMW) e o negócio dele parecia inabalável. De repente ele perdeu tudo: a empresa, os carros e hoje não sabe o que fazer da vida’’.
O londrinense faz a seguinte comparação para reforçar a queda do movimento: ‘‘Se no ano de 95 era enviado em mercadorias para o Brasil, via aérea, 80 toneladas por semana, hoje não se consegue exportar nem 20 toneladas. Para quem conheceu o domínio dos brasileiros no Donwtown de Miami, hoje aquela área está irreconhecível.’’
Além dos lojistas, exportadores e restaurantes, o setor imobiliário do sul da Flórida também sente o impacto da crise brasileira. Em cada lançamento de condomínio de luxo, os brasileiros – nesse caso, a maioria residente no Brasil – entravam com uma cota de compra entre 30% e 40% das unidades.
A presença de investidores do Brasil vinha sendo tão grande que os campos de futebol, mesmo nessas áreas nobres como o Willians Island, passaram a dividir espaço com os campos de golfe. Na região do Aventura (norte Miami Beach), à beira mar, onde os brasileiros tanto investiram, hoje ocorre o contrário. Só interessa a venda dos imóveis.
Além da queda do poder aquisitivo com a crise, a desvalorização do real dobrou o valor da mensalidade do financiamento em dólar. Com isso, o apartamento de férias na Flórida virou um luxo insustentável.
A comunidade brasileira de Orlando é bem menor que a de Miami. Na região central da Flórida estima-se que vivem cerca de 15 mil brasileiros. A maioria tem o seu negócio voltado para atender os turistas que tradicionalmente passeavam pela terra da fantasia com muito dinheiro e pouco conhecimento do idioma. Era um filão atraente atender esse público.
Restaurantes e lojas brasileiras ou hispanas com bandeiras verde-amarelas se multiplicavam ao longo da International Drive, o centro turístico do maior pólo de turismo do mundo. A característica dessa comunidade era faturar alto e tudo o possível apenas durante duas temporadas por ano, em dezembro/janeiro e em julho, durante as férias escolares daqui.
Como a desvalorização do real ocorreu em meados de janeiro, a primeira temporada de 99 praticamente morreu no começo. As duras penas os comerciantes esperaram para ver se em julho as coisas melhoravam. Mas, ao invés dos 80 a 100 mil turistas de outras temporadas de meio-de-ano, nem 10 mil visitantes estiveram em Orlando.
Entre as tradicionais loja de eletroeletrônicos, a primeira a sair do mercado foi a Concord Computers, isso antes da temporada de julho. O proprietário simplesmente fechou às portas, de madrugada, sem dizer adeus para os credores. Em seguida, a maior loja brasileira dos Estados Unidos, a Victor’s, entrou em negociação com a Brasif.
A loja de Kissimmee (próximo a Disney) foi fechada e a de Orlando e Miami deveriam passar por completa remodelação. Mais a Brasif saiu do negócio. O comentário era de que os seus executivos ficaram frustrados com o movimento abaixo do esperado.
Outras duas grandes lojas de Orlando, a Sonria (a pioneira, com 22 anos naquela cidade) e a Yes, Brasil foram colocadas à venda. Comenta-se que os proprietários da Sonria estão pedindo US$ 690 mil pela loja.
Os restaurantes praticamente foram colocados à venda: Brazilian Place, Brasil Grill, Donna Donni e Lenha & Cia. Há 9 anos morando e trabalhando em Orlando, o publicitário paulista Eraldo Manes diz que o efeito da crise brasileira caiu como um bomba na cidade. ‘‘Ninguém escapou. Foi um efeito em cadeia que deixou os brasileiros sem nenhuma perspectiva de negócio. Colocar a empresa à venda parece ser uma saída lógica, mas quem vai investir diante da atual conjuntura?’’

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