Criminalidade atrai a classe média
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2005
Guilherme Gouveia<br> Reportagem Local 
A classe média, que antes só aparecia em boletins de ocorrência em caso de brigas de trânsito, crimes passionais ou confusões em boates, agora está envolvida com assaltos à mão armada, furtos qualificados, tráfico de drogas e até mesmo sequestros-relâmpago. Cada vez mais jovens ''bem nascidos e crescidos'', amparados por uma estrutura material sólida, aderem à criminalidade, por diferentes razões.
Em Londrina, no final do mês passado, um advogado passou momentos de pânico como refém de dois assaltantes. Do banco de trás do carro, acompanhou cinco assaltos no intervalo de duas horas. Um dos suspeitos, de acordo com investigação da Polícia Civil, seria filho de um conceituado médico da cidade, que foi reconhecido por duas vítimas. O outro seria do mesmo círculo social.
Ninguém sabe ao certo por que a juventude que cresceu protegida dos efeitos das disparidades sociais mergulha com essa intensidade no mundo do crime. O vício seria uma das razões; o prazer e a sensação de perigo, o equivalente a uma nova modalidade de esporte radical, seriam outras.
O fato é que o fenômeno se alastra pelas ruas de Londrina, tanto que o recém-criado setor de pesquisa do 5º Batalhão da Polícia Militar decidiu iniciar a partir de janeiro uma pesquisa sobre o assunto. Durante um ano, três policiais terão acesso a boletins de ocorrência, inquéritos abertos pela Polícia Civil e aval para levantar outros dados sobre a trajetória dos acusados. A informação é do tenente-coronel Marcos Palma, comandante do batalhão.
''Nosso setor de inteligência já identificou a existência de crimes praticados por jovens de classe média e alta. A pergunta que devemos fazer é que motivos levam esses jovens a delinquir e o quanto isso representa dentro da criminalidade de um modo geral'', argumentou o comandante.
Palma acredita que a incidência desses casos na cidade não seja alarmante não há número oficiais mas admite que o pessoal que usa roupas de grife vem sendo gradativamente atraído pela criminalidade. ''Você sabe desse caso, eu seu sei de outro, o pessoa da inteligência já detectou isso também, por isso a polícia tem que trabalhar na prevenção. Não sabemos quanto isso representa na criminalidade, mas quem sabe não é um furo no dique? Temos que trabalhar por antecipação, a pesquisa vai identificar os problemas e levantar as soluções'', ponderou Palma.
E qual a explicação? Por que adolescentes e jovens de ''boa família'' entram nessa? A falta de limites e ideais ou a sensação de impunidade podem explicar. ''Essa fase do jovem é turbulenta e transgressiva. É uma fase de adaptação, eles estão acostumados com mordomia, com tudo na mão, e passam assumir responsabilidades da vida adulta'', explicou o médico e psicanalista Marcelo José de Castro.
A droga também é apontada como responsável pelo envolvimento desses jovens com os crimes mais violentos, como assalto à mão armada e sequestro-relâmpago. Nesse caso, o dinheiro é usado para sustentar o vício e pagar traficantes. ''O problema é que o dinheiro nunca é o suficiente'', ressaltou o psicanalista. Para o comandante Palma, com a falta de liquidez em casa, o filho pode optar pelo dinheiro ''fácil'' do crime para comprar droga. ''Os pais cortam a mesada a partir do momento que descobrem o vício'', afirmou.
Existem ainda outros componentes levantados, como a glamourização do crime, a sensação de poder com a arma em punho e a idéia da impunidade. ''Isso é perfeitamente possível. Eles podem cometer crimes por exibicionismo e afrontar as instituições da sociedade organizada'', disse o psicanalista.
Na pesquisa, a Polícia Militar pretende mapear essas motivações e tentar resolver o problema. O comandante Palma fala em grupos sociais (quadrilhas) que exigem tarefas arriscadas de seus novos membros. ''Isso também é uma hipótese. Para entrar no grupo, o jovem precisa passar por alguns desafios, como roleta russa, manobras arriscadas, furtos e até mesmo assaltos à mão armada'', explicou o comandante. ''Tudo isso essa pesquisa vai mostrar, se é por drogas, adrenalina, prazer ou uma somatória de tudo isso'', prosseguiu. A pesquisa deve ser publicada no final do ano que vem.
Um dos bandidos de classe média mais populares do País, que ganhou as páginas dos grandes jornais, é o carioca Pedro Lomba Neto, de 23 anos. Conhecido como Pedro Dom, ele foi morto pela polícia acusado de liderar dezenas de assaltos a condomínios de luxo e envolvimento com o tráfico de drogas.


