CRIMES NO TRÂNSITO - Tempo não diminui dor da perda e saudade
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sábado, 30 de maio de 2009
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A marcha implacável do tempo pode apagar muitas coisas mas não é capaz de amenizar a dor no coração daqueles que perderam pessoas queridas em acidentes de trânsito. As horas, os dias, os anos só fazem aumentar a saudade e a revolta de constatar que as punições, muitas vezes, não passam de meras formalidades jurídicas ou de compensações financeiras. São medidas que de maneira alguma reparam as tragédias que diariamente se repetem pelas ruas e rodovias brasileiras e condenam mais e mais famílias a uma tristeza sem fim.
Segundo dados do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o trânsito no Brasil mata a cada ano 35 mil pessoas, ou quase 100 pessoas todos os dias. Vítimas como os dois estudantes que morreram atingidos pelo carro conduzido pelo então deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho. Ou, mais recentemente, o bombeiro Ronaldo Lima Costa, a esposa, o filho adolescente e o genro, vítimas de acidente na Zona Norte de Londrina há nove dias.
A secretária Ana Paula Colonheis, 36 anos, escanteou a própria vida e passou os últimos oito anos lutando para provar que seus dois filhos - Lucas, 7, e Amanda, 10 - não foram os culpados pelo atropelamento que lhes tirou a vida numa fria tarde de sábado de 30 de junho de 2001. Os irmãos foram colhidos sobre a faixa de pedestres, na Avenida Inglaterra, esquina com a rua Finlândia (Zona Sul de Londrina). ''Arrancaram de mim as duas coisas que mais amava''. O motorista, Leandro Antônio Bertola, foi condenado por homicídio culposo (sem intenção) a três anos e meio em regime aberto mas recorreu da sentença. ''A dor maior era ouvir a versão dele de que as crianças teriam invadido a rua. Não foi. A condenação foi ridícula mas, bem ou mal, ele foi condenado.''
Após oito anos, Ana Paula está tentando ''voltar a viver'' mas as lembranças ainda lhe sufocam nos momentos mais comuns: ''encontrei a mãe da melhor amiguinha da Amanda e ela me falou que a filha iria prestar vestibular. O Lucas, hoje, teria 15 anos. Pensei comigo: meu Deus, era para eu estar passando por essas alegrias e ele me tirou tudo isso.'' As fotos dos filhos continuam na sala em lugar de destaque. ''É uma forma de lembrar que passei momentos maravilhosos com eles e fui muito feliz'', desabafa.
O amor que tinha pelo caçula, José Arrebola Neto, 45, foi o que deu forças para que Nelide Reccanello Arrebola, 79 anos, velasse e sepultasse o corpo dele em pleno Dia das Mães de 9 maio de 2005. Um dia antes, o então atendente de farmácia morreu ao ter seu Monza violentamente atingido pelo Polo guiado pelo estudante Guilherme Costa Alves Nunes, 20, no cruzamento das ruas Brasil com Goiás (Centro). Eram pouco mais de 7 horas. Neto saía do trabalho e Nunes voltava de uma festa. ''O presente que ia me dar ficou dentro do carro'', ressente-se a mãe. ''Ainda lembro dele me dando tchau quando saiu para trabalhar. Foi a última vez que vi meu filho com vida. Esse moleque não sabe o que fez para nossa família. É uma tragédia que não tem fim, porque é uma dor que não para e uma saudade que só aumenta.'' A morte do pai também revolta muito os dois filhos dele, hoje já adultos.
Na casa da família Cordeiro tudo parou quando o telefone tocou por volta da meia-noite de 22 de abril de 2006. ''Tiraram nosso chão, nossos pés, nos dilaceraram. Nem almoçar juntos na mesma mesa aos domingos a gente consegue mais'', diz a funcionária pública Cleide Cordeiro, 44, que perdeu o filho Bruno, 23, e a nora Valquíria, 24, em um acidente ocorrido no viaduto no cruzamento das avenidas Brasília e 10 de Dezembro (Zona Leste). Depois de atingir uma outra moto, o Astra guiado pelo repórter policial Dans Barreira despencou na cabeça do casal que passava em outra moto na pista debaixo.
Cleide conta que a depressão a impedia de chorar até alguns meses atrás. Com muita terapia, agora as lágrimas brotam cheias de indignação e dor quando lembra do filho bondoso, popular entre os amigos e que planejava lhe dar um neto. ''Parece que escuto ele brincando no quintal, andando pela casa, sinto o cheiro dele no quarto. Depois paro, fico pensando... Ele não está mais aqui.'' A filha Vanessa, que hoje cursa Psicologia, afirma que só agora a família está acordando. ''Mas a gente ainda se sente sepultado junto com eles'', lamenta.


