CRIME TOGADO
A execução do juiz Antonio José Machado Dias, em Presidente Prudente, foi um recado do crime organizado para a sociedade desorganizada: ''nada nos deterá''. Ou, como se escreveu no bilhete apreendido em presídio de segurança máxima, circulando de cela em cela: ''A operação que faltava foi marcada e o paciente operado''. Quer dizer: além dos crimes que praticam, os bandidos com apoio logístico constituíram seu próprio tribunal, onde se manda às favas a cláusula pétrea de impedimento constitucional para a pena capital. Apesar disso, tem muita gente confundindo a brutal realidade das ruas com passeio pela Disneylândia. Assim estamos vivendo hoje.
Enquanto alguns palpiteiros de plantão sugeriam juiz sem rosto para decidir nos processos, falando-se até em magistrado encapuzado (!), a viúva de Machado Dias, também juíza, saiu de casa para rezar no lugar onde o marido foi assassinado. Depois, colocou o rosto na TV para dizer que havia perdido sua jóia mas não se deixaria intimidar. De volta ao lar destruído (haviam se casado há dois meses), Cristina Escher desabafou: ''Ninguém dos direitos humanos bateu na minha porta''. Queixou-se com amargura: ''Os valores estão invertidos''. E como, doutora!
Tudo o que se disse até agora, em termos de propostas para colocar tranca na porta mais uma vez arrombada, gira em torno de projetos de lei para isso e aquilo. É ridículo. O que precisamos é ação, em cima de um arsenal legal que exige reparos, sim, mas possui instrumentos para defesa da cidadania aqui e agora. Cumpram-se as leis existentes e já estaria muito bom, para começo de conversa. Sobre as testemunhas, nenhuma palavra. Mas são elas os alicerces para uma decisão fundamentada. Ficam ali, no Fórum, tantas vezes cara a cara com o algoz, mas tendo que falar alto seu endereço, para regozijo do bandido, e ainda precisando de coragem para o reconhecimento formal. Engraçado, ninguém falou em testemunha sem rosto e os programas de proteção, tantas vezes alardeados, não passam de paliativos constrangedores.
Como diria o filósofo italiano Giorgio Agamben, é preciso distinguir a anarquia do caos, mas temos que admitir que existe um espaço vazio de direito. Os mais exaltados diriam que existe uma vacância jurídica, o ''solstitium'' romano, ou seja, aquele momento em que a lei marca um ponto de parada, assim como o sol em seu solstício''. Para o leitor ter uma idéia: Machado Dias era juiz-corregedor de sete presídios, entre eles aquele para onde o traficante Fernandinho Beira-Mar foi removido. Dias só soube disso assistindo os telejornais! O Judiciário deixou o Executivo fazer o que quisesse, a ponto de, agora, ter sido programado como, no ato de servir pizzas, um rodízio interestadual para confinamento do bandido que aterrorizou o Rio de Janeiro. Hoje, as forças legais estão intimidadas e acuadas. A morte do juiz e a dor de sua esposa são revoltantes. Tem gente querendo esconder o rosto. Precisamos de homens, muitos, com a mesma dignidade e coragem de Cristina Escher, a mulher de luto.





