Artista criador de praças, parques e jardins, o paisagista brasileiro Roberto Burle Marx, morto em 1994, costumava dizer que todo jardim é um espaço de lazer. Porém, se ele vivesse hoje em Londrina teria que repensar esta frase. Quando cai a noite, os frequentadores que poderiam usufruir das praças e parques da cidade se retiram para suas casas por causa do medo de se transformarem em vítimas. Camuflados pela falta de conservação e segurança e pela iluminação precária ou inexistente, marginais de todo tipo ditam as regras e definem quem é bem vindo e quem não é nestes locais.
Um episódio recente ilustrou, com tintas fúnebres, o risco de transitar na hora errada em determinadas áreas que deveriam ser de lazer. O 1º de julho ainda era dia claro quando Francisco Sebim foi agredido até a morte na Praça dos Viajantes, que fica ao lado do Terminal Rodoviário e próximo da Delegacia Central. Aos 60 anos de vida, ele morreu vítima de pedradas na cabeça.
Acaso? Infortúnio? Não para quem passa por ali diariamente. ''Essa praça sempre foi perigosa. Trabalhei na Rodoviária há uns quatro anos e de lá a gente via os carreirões no pessoal que tentava atravessar a noite'', recordou a doméstica Ercina Barbosa dos Santos, 55. ''Não aconselho ninguém a passar depois que escurece porque é muito arriscado'', completou o auxiliar financeiro Ronaldo Francisco dos Santos, 35. Sem se identificar, um casal de namorados confirmou que o local é ponto de ''ladrãozinho coca-cola'', ''essa molecada que ainda nem sabe direito o que é a vida''.
Problema semelhante atinge a Praça Rocha Pombo, uma das mais antigas e tradicionais da cidade, que virou ponto de venda e consumo de drogas e de prostituição barata. Mesma situação do Bosque, ao lado da Catedral Metropolitana, onde nas noites e madrugadas, segundo taxistas e comerciantes da região, as vielas por entre as árvores funcionam como quartos de ''motel'' a céu aberto.
Saindo do círculo central, os problemas não são menos graves. O Lago Cabrinha, inaugurado em setembro de 2004 na Zona Norte, há meses está sem qualquer iluminação porque a fiação elétrica foi furtada. A escuridão afugentou a população, que só frequenta o espaço enquanto a luz natural permite. ''No começo bastante gente fazia caminhada mas agora diminuiu bastante. Ficar aqui depois das 18 horas não é muito bom'', avisou o auxiliar de serviços gerais, Sivaldo Cardoso, 30. Na companhia da mãe, Helena Oliveira, 63, o estudante Elias Oliveira, 30, advertiu que o local é perigoso à noite porque se torna ponto de usuário de drogas. ''Deu uma certa hora, o pessoal do fumo domina'', observou. Pequenos roubos também são constantes.
Uma das mais tradicionais áreas de lazer em Londrina, o Zerão também não saiu ileso. Vendedor de coco há mais de uma década, Augustinho Pedro da Silva, 51, afirmou que até por volta das 20 horas o policiamento é eficaz. Mas completa: ''Acho que deveria ter segurança o tempo todo porque a coisa está feia. Infelizmente, isso é em todo lugar. Vagabundo não tem hora: age de dia, de noite, doze em ponto''. Ele reclamou ainda das depredações, das pichações do Anfiteatro e da falta de iluminação na área do campo de futebol, parquinho e quadras esportivas. Pensamento semelhante tem a colega de profissão que também trabalha no Zerão, Tereza Battistella, 45. ''O Zerão tem a fama mas os problemas daqui são os mesmos de qualquer outro lugar em Londrina. Hoje em dia nem um lugar é seguro à noite, nem a casa da gente'', ponderou.

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