Paulo Pegoraro
De Cascavel
A menor S.S., 17 anos, de Cascavel, que matou com um tiro de revólver a enteada Katlen Antunes de Saibro, de 9 anos, e desferiu outro tiro contra o também enteado J.S., 12 anos, na tarde de anteontem, pode ser vítima de alteração de seu estado mental em decorrência do ‘‘estado puerperal’’, que afeta muitas mulheres no período pós-parto. A Polícia considera esta hipótese, e um especialista ouvido ontem pela Folha, o psiquiatra Eurípedes Paracchini, 20 anos de experiência, embora cauteloso ao abordar o assunto, afirma que uma perícia poderá comprovar (ou descartar) a possibilidade.
Até ontem, não havia explicações para os crimes cometidos por S.S. Há versões contraditórias, segundo o delegado Manoel Pelisson, encarregado do caso. A adolescente vivia com o mecânico Dirceu Saibro, 30 anos, e é mãe de um bebê de 10 dias. Dirceu foi casado com Tereza Antunes, 30 anos, união da qual nasceram Katlen e J.S.. O casal se separou há três anos e, há um ano, as crianças foram viver com o pai e S.S., no bairro Paulo Godoy, zona oeste da cidade. Anteontem, a adolescente atraiu as crianças para um matagal, onde desferiu os tiros.
Katlen foi atingida na cabeça e seu irmão no braço. S.S. admitiu a autoria dos crimes, mas disse ter sido induzida a isso por Tereza Antunes, sob ameaças diversas. Disse ainda que Tereza forneceu a arma – que ela jogou no matagal e não havia sido encontrada até a tarde de ontem. Tereza nega a acusação. O Conselho Tutelar informou que Tereza e os filhos se relacionavam bem.
Dirceu Saibro disse a amigos e familiares que não se conforma com a autoria do crime assumida por S.S., porque não haveria motivos. O casal se relacionava bem e a adolescente não tinha problemas com as duas crianças, segundo testemunharam vizinhos que estiveram no velório, no final da tarde de ontem. Dirceu permaneceu o tempo todo debruçado sobre o caixão da filha.
Um parente especulou a possibilidade de que uma terceira pessoa tenha envolvimento nos crimes. ‘‘Afinal, onde está o revólver? Se foi ela que atirou, de onde saiu a arma? O Dirceu não tinha revólver em casa, e ela não tinha dinheiro para comprar’’, argumentou.
O delegado Manoel Pelisson e o delegado-chefe da 15ª Subdivisão Policial, Haroldo Davison, pesquisaram o ‘‘estado puerperal’’ e localizaram teses científicas segundo as quais alterações mentais após o parto podem levar mulheres a atos extremos. Para o psiquiatra Eurípedes Paracchini, ‘‘isso é possível’’, mas prevalece a autoviolência (até mesmo suicídio) ou maus cuidados aos bebês. Ocorre também a agressividade contra terceiros.
Segundo Paracchini, com o parto e a perda da placenta há grande alteração hormonal nos primeiros 30 dias ‘‘e isso se reflete no estado psicológico’’. O psiquiatra considera ainda a possibilidade de que S.S. já tivesse problemas psicológicos anteriormente ‘‘e as alterações hormonais desencadearam uma forma de reação’’. Elas poderiam ser evitadas ‘‘se houvesse por exemplo harmonia e apoio familiar, identificação daqueles problemas e o tratamento adequado’’.

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