''Nessa cidade eu vou só assim e eu me sinto bem fazendo a panfletagem, nunca vai ter fim. Você sabe também que a rima faz parte da minha vida e fica tão difícil dividir isso de mim. E quando o panfletinho você rasga aí eu fico sem graça, pode crer, não vou gostar. Não pode ser rasgado esse panfleto que foi panfletado com muito bom humor. Então guarda porque quando for preciso você liga nessa loja que...''.
Cantando esta rima, Geverson Carlos Brás Vicente, 22 anos, percorre há dois anos e meio as ruas de Londrina com a mochila cheia de panfletos nas costas. Ele recebe sempre ao fim do dia e com o dinheiro da panfletagem, além de ajudar no sustento da casa, pretende cursar a faculdade de Propaganda e Marketing.
A rotina do londrinense, que hoje vive em Cambé com a mãe, o padrasto, dois irmãos e a bisavó, começa às 8 horas e não tem hora para terminar. Depois de caminhar por cerca de oito horas diárias, Geverson volta para a cidade vizinha, onde cursa o segundo ano do ensino médio noturno.
A rima é algo que o acompanha desde os oito anos, quando ele começou a trabalhar na venda de salgados. ''Sempre li e fiz poesia'', contou Geverson, que procura uma editora para publicar um livro de poesias. ''Também já gravei um CD de paródias com letras que falam de panfletagem.''
O poeta afirmou que costuma pensar nas rimas enquanto caminha pelas ruas e que mesmo quando não está trabalhando, não consegue parar de rimar. Seu sonho é ter a própria empresa de panfletagem. ''Hoje tá sendo fantasia, quem sabe vai ser real um dia. Que aqui faço as empresas terem a maior vantagem com a panfletagem sem sacanagem'', brincou.
Desempregada, Maria Rosa (nome fictício) também apostou na criatividade para sustentar o marido e dois filhos. Por três anos ela manteve uma loja de roupas infantis no Centro de Londrina, mas os altos custos com funcionários a fizeram desistir do negócio.
''Meu marido ficou doente e não podia mais trabalhar, então tive que me virar'', disse. Maria Rosa conseguiu vender a loja e com a ajuda de duas amigas deu início a um novo negócio: passou a vender roupas femininas de porta em porta.
''Faço mais ou menos o que os caixeiros-viajantes faziam no passado'', comparou. Segundo Maria Rosa, a diferença é que ela já tem uma clientela formada, ''então é mais fácil''.
A vendedora costuma visitar salões de cabeleireiro com araras cheias de roupas e também recebe encomendas. ''E a cliente não precisa se preocupar porque eu levo as roupas na casa dela, deixo ela experimentar e quando ela decidir pela compra eu volto para receber ou pegar a roupa de volta'', explicou.
Sem custos com o aluguel de um imóvel ou pagamento de funcionários, a vendedora chega a tirar até R$ 1,2 mil por mês. ''Busco as roupas em São Paulo e em Cianorte e os únicos custos agora são com telefone e gasolina'', calculou.
Já são mais de 150 clientes em Londrina e região, atendidos de segunda à sábado. ''A clientela tá formada, já conhece o produto'', declarou Maria Rosa, que também vende roupas de tamanhos especiais. ''A necessidade me fez viver na ilegalidade, mas não quero mais abrir loja, quero rever meu registro e continuar trabalhando em casa.''

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