Quando se mete a retratar uma cidade do interior, o autor de novelas não se acanha em utilizar o clichê de batizar estabelecimentos comerciais do local com nomes esdrúxulos: Bar Budo, Funerária Boa Morte. Londrina, no seu ritmo de cidade grande, vem progressivamente exterminando os comércios com nomes divertidos e inusitados. Tanto que alguns clássicos do gênero na cidade, como o açougue Vaca Viúva e a papelaria Trecos & Coisas, fecharam as portas recentemente.
Alguns adeptos da irreverência no nome, entretanto, continuam funcionando. Destes, uns poucos são iniciativas recentes, como a choperia Bargaço, aberta há quatro meses na avenida Maringá (zona oeste); e muitos já têm alta quilometragem, como os vinte anos do Atelier do Kapeta, na Vila Casoni (centro).
Aos 60 anos e sonhando com a aposentadoria, o proprietário do estabelecimento, Ângelo José Denardi, está com planos de deixar a loja (que comercializa serigrafias, acrílico) com os filhos. Sob uma exigência: que mudem o nome do Atelier.
''Nesses vinte anos, o nome Kapeta me prejudicou mais do que ajudou. Acho que vendi menos do que podia por causa do nome. Antigamente, todo mundo na região me conhecia, e sabia a origem do apelido. Ninguém se espantava. Hoje, mudou muita gente nova pra cá e eles se assustam. Tem muita igreja por aí. Dá pra notar que tem gente que atravessa a rua só de ver o Atelier'', reclama Ângelo, que recebeu na infância o apelido de Zé Kapeta - daí o nome. ''Ia chamar o lugar de 'Atelier do Ângelo'? Ninguém ia saber de quem era''.
Airton Thomaz, que se mudou para Londrina recentemente para abrir o Bargaço, não concorda com a teoria de Ângelo de que o nome pode ajudar a naufragar um negócio. ''Acho que (o nome) não influencia em nada. As pessoas podem achar estranho a princípio, mas é a qualidade do serviço que importa'', argumenta. O trocadilho Bargaço, justifica Thomaz, foi escolhido porque a imagem de bar é associada à pinga, ao bagaço da cana por isso, vários galhos de cana de açúcar enfeitam o local.
Depois de aberto o estabelecimento, Thomaz começou a ouvir de amigos e clientes teorias sobre o nome. ''Me disseram que, em São Paulo, os garçons ficavam chateados porque saíam do serviço e não tinha mais nenhum lugar aberto para eles tomarem sua cerveja. Aí, eles abriram um bar chamado Bar Gaço, mas o 'gaço' era de 'garçon'. E outro dia, um cliente veio me dizer que tem um Bargaço em Nova Iorque'', diz o proprietário.
Às vezes, o nome nem é tão inusitado, mas pode sugerir que a especialidade do estabelecimento é outra o que rende alguns episódios constrangedores. Fátima Moreira Lima, proprietária da loja de roupa íntima Pequenas Luxúrias, diz que às vezes o local é confundido com um sex shop. Os mal-entendidos renderam pelo menos uma situação hilária, como o dia em que um senhor de meia idade chegou na loja e confudiu um nécessaire com um artigo erótico.

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