Crianças são vítimas da 'metamorfose psíquica'
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de julho de 2008
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Frágeis e indefesas mas mesmo assim vítimas de atos bárbaros provocados, na maioria das vezes, por pais ou responsáveis. Casos de violência contra crianças têm se tornado cada vez mais frequentes e o mais triste é que esta tendência não dá sinais de arrefecimento, muito pelo contrário: somente desde 2006 no Paraná, foram registrados pelo menos cinco crimes desta natureza.
Terapeuta familiar, o psicólogo Cláudio Sproesser comenta que a massificação na divulgação dos casos pela mídia, as conturbações e pressões da vida moderna, entre outros fatores, fragilizam a estrutura psíquica das pessoas, principalmente daquelas com predisposição, e desencadeiam o que ele chama de ''metamorfose do comportamento psíquico''.
Na última semana, os paranaenses foram sacudidos com dois casos perturbadores de violência contra crianças, mas estes não foram os únicos episódios recentes. Na quinta-feira, em Colombo (Região Metropolitana de Curitiba), Amanda Orbach Pereira, de dois anos e meio, foi espancada até a morte pelo padastro porque chorava demais.
Na segunda-feira, na Capital, a auxiliar de enfermagem Tatiane Damiane, 41, jogou a própria filha, Mariana, de 8 meses, do sexto andar de um prédio. Em janeiro deste ano, em Cambé, uma mãe de 19 anos ateou fogo no carrinho da filha, de cinco meses, durante briga com o marido.
No ano passado, uma jovem de 19 anos de Colombo forjou o sequestro da própria filha, de 40 dias, mas acabou confessando que o bebê havia morrido, supostamente por uma queda, e que ela havia abandonado o corpo em uma valeta. Em 2006, também em Curitiba, Francielle Vieira de Mello, que sofria de depressão pós-parto, matou o filho de sete meses a facadas, também em Curitiba.
Sproesser revela que há oito anos tratou uma grávida que confidenciou que ainda durante a gestação tinha o pensamento mórbido de matar o filho. Ela foi acompanhada, conseguiu contornar o problema e hoje a família tem uma vida tranquila e feliz.
''Toda intervenção cirúrgica leva a uma depressão, que é normal. Com o parto também é assim. Se não houver um apoio preventivo já durante o pré-natal e se a mãe sofrer de transtorno bipolar (alterna momentos de euforia com depressão) pode desenvolver uma psicose pós-parto'', alerta o terapeuta. ''Quanto mais frágil a pessoa se sente mais ela agride, porque a melhor defesa é o ataque. A pessoa bate e pede o contrário: me ame, me ame.''
O terapeuta reforça que as manifestações violentas podem ocorrer em qualquer época. ''Quando não há um apoio, esta reação de amor e ódio fica latente'', comenta. E as reações podem ser desencadeadas por uma série de fatores sendo que Sproesser destaca: a massificação e banalização das informações relacionadas com este tipo de ocorrência; a globalização que exige cada vez mais das pessoas; o consumo de álcool, drogas e uso indiscriminado de medicamentos controlados; o estresse; a insegurança, e até a corrupção.
''Tudo isso provoca um desgaste emocional muito forte. No nosso trabalho psicoterápico, estamos vendo uma metamorfose no comportamento das pessoas. Hoje, crianças com 11 anos têm uma agressividade absurda'', completa.
Ele também observa que é comum a cumplicidade da mãe quando o agressor é o padrasto ou outra pessoa de seu círculo familiar. ''Existe um acobertamento, uma cumplicidade, onde a mãe silencia e isso é mais comum do que se imagina. Isso quer dizer que o ambiente familiar é doentio. A criança é o sintoma de que a família está doente'', aponta.
Sproesser afirma, no entanto, que é possível identificar quando a pessoa precisa de ajuda profissional. Situações envolvendo mudanças bruscas de humor, segundo o profissional, são as mais comuns: ''muitas vezes, por nada, a pessoa fica muito irritada, ou o contrário, fica muito alegre.''


