Depois da tempestade, a bonança. O velho ditado se aplica perfeitamente à vida do estudante Marcelo Cordeiro Ramos. Aos 13 anos, ele perdeu os quatro dedos da mão direita num acidente com um triturador de milho, enquanto trabalhava no sítio da família, no Distrito Maravilha (Zona Sul de Londrina).
Por ser destro, precisou reaprender os movimentos usando a mão esquerda. Para estimular o estudante a escrever novamente, os coordenadores do projeto Museu de Arte Jovem, da Secretaria Municipal de Educação, o convidaram a participar das oficinas de arte realizadas na escola municipal do distrito. Dessa atividade, além de reaprender a escrever, Marcelo também ganhou habilidade com os pincéis.
Realizadas pela prefeitura, em parceria com a Fundação Pró-Cultura e com a empresa Dixie Toga, as oficinas tiveram início em março, em seis escolas municipais da zona rural.
Marcelo, que cursa a sétima série do ensino fundamental, conta que levou quatro aulas para preparar a tela intitulada Natureza x Homem, escolhida por ele para participar de uma exposição que reúne os trabalhos dos 100 alunos envolvidos no projeto, no Espaço Berimbau da Cidadania, no Centro de Londrina.
As pinturas foram norteadas pelo tema ''Garantindo o futuro do nosso planeta''. ''Pensei na atitude do homem em relação à natureza. Como o mundo ficará se o homem continuar destruindo o meio ambiente'', disse Marcelo, ao explicar sua obra. O estudante, que nunca tinha pintado uma tela na vida, afirmou ter achado o processo bem fácil depois de terminar a primeira tela. Ao todo, os alunos produziram cinco telas ao longo do ano. ''Escolhi a terceira por ser a melhor.''
Eduardo Souza Silva, 13, também estuda em Maravilha, mas, diferente de Marcelo, já estava acostumado a desenhar em casa. ''Aprendi rabiscando no papel'', recordou. A inspiração para a tela, que leva o título Virando a Página, ele foi buscar nos livros. ''Mostro a natureza destruida numa página e preservada na página seguinte.'' Eduardo precisou de duas aulas para terminar o trabalho e pela primeira vez usou telas e tintas para desenhar. ''Aprendi bastante coisa nas oficinas.''
A aluna Dayani Bezerra Sabino, 14, sempre gostou de desenhar e não teve dificuldades em produzir a tela ''que retrata o planeta destruído pela ação devastadora do homem'', como ela mesmo definiu. ''Vi uma foto do planeta Terra numa revista e em outra revista vi a foto do sol e resolvi unir as duas figuras numa só para compor a minha tela'', assinalou a estudante da oitava série do ensino fundamental, que mora no Distrito Maravilha. Ela também nunca tinha feito pintura em tela antes.
A professora de artes Alice Zundt, coordenadora do projeto, ressaltou que nas oficinas, os alunos aprenderam técnicas de pintura e história da arte, além de discutir questões ambientais. ''As aulas culminaram em cinco telas e os próprios alunos escolheram a melhor delas para a exposição.''
As escolas foram escolhidas pela secretaria de Educação, que cedeu o espaço e os professores para o projeto, ''voltado principalmente aos alunos em situação de risco social'', afirmou Eva Maria de Andrade Okawaki, assessora pedagógica da prefeitura. Já os materiais como telas e tintas, foram doados pela Dixie Toga, que mantém o mesmo projeto em Cambé, Curitiba e Paranaguá. ''Além de levar arte à crianças que nunca tinham tido contato com pintura em tela, o projeto serviu para aumentar a auto-estima dos alunos, que agora sentem-se mais valorizados, além de melhorar a atitude deles em sala de aula.''
Serviço - A exposição acontece até o dia 15 de dezembro no Espaço Berimbau da Cidadania, na Rua Minas Gerais, 69

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