Não é preciso muita coisa para fazer um indiozinho sorrir. Basta conhecer uma palavra em guarani:kádire, que significa brincar. Se oferecer ainda ao garoto algodão-doce, pipoca e refrigerente, como toda criança o pequeno curumim se sentirá o mais feliz do mundo.
Pena que na hora de chamar os amigos para kádire, as crianças indígenas prefiram mais os carrinhos e as bonecas do homem branco às brincadeiras tradicionais da cultura indígena, como a pescaria.
Porém, acostumados com a vida na cidade, os indiozinhos têm certeza de uma coisa: o Dia da Criança também é dia de índio.
Para que as cerca de 30 crianças do Centro Cultural Caigang, às margens da Avenida 10 de Dezembro, (Zona Sul), não ficassem sem a comemoração, os moradores do Conjunto Cafezal III prepararam uma festa ontem à tarde, com a distribuição de muita pipoca, algodão-doce, refrigerantes, doces e alguns brinquedos, arrecadados pela comunidade.
A chuva que caiu não foi impecílio para a festa, que presentou as 30 crianças de 10 famílias da reserva Apucaraninha.
Ele tem nome bíblico, Zaqueu, e atende pelo sobrenome Marcolino. Aos oito esperava para ganhar o doce parecendo algodão, sonhando com um carrinho de brinquedo.
Viviane - não conseguimos saber mais nada da garota, que falava sobre a sua timidez no silêncio de um sorriso no canto da boca - disse apenas que queria ganhar uma boneca.
Mas é Simone Artur Frederico, que aos 17 anos está trocando as brincadeiras de criança para embalar o primo de apenas três meses, quem mostra como são os brinquedos lá na reserva.
'' A gente brinca de bola, pipa e carrinho né'', afirmou a adolescente, encurtando a distância entre as crianças da cidade e as índias, através das brincadeiras.
A festa para as crianças transformou o dia chuvoso de Maria de Jesus, 47 anos.
''Acho o dia de hoje muito bonito. O homem branco está presenteando as nossas crianças. O dia de hoje ficou alegre'', destacou a índia.
Valdete Marcondes Artur, 55 anos, acompanhava de perto a distribuição dos presentes - coisa do Dia das Crianças, que em sua época de meninice na comunidade indígena nem sabia o que era.
''Antigamente, não conhecia disso não. Mas é muito bom, a gente da cidade presenteia nós'', comemorou Valdete, dizendo ainda que até filho de índio está deixando de ser criança muito cedo.
''Hoje em dia, a gente cria filhos que logo partem para fazer balaio, procurando taquara no mato. Hoje, as crianças nossas não têm tempo para brincar'', lamentou a índia, avó de dois curumins, que estavam sorrindo fácil com a festa tardia.

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