Curitiba - O processo de internação em um hospital é geralmente uma experiência desagradável. Quando se trata de crianças, esta situação fica ainda mais triste. Acostumados à liberdade das brincadeiras e donos de grande quantidade de energia, estes pacientes sofrem ao ficarem presos a uma cama de hospital ou a uma cadeira de rodas, mesmo que por poucos dias.
Para ajudá-los a enfrentar o período de internamento e promover a inclusão digital, o Comitê para a Democratização da Informática no Paraná (CDI) criou a Escola de Informática e Cidadania para crianças hospitalizadas (EIC-Hospitais). O projeto teve início em 2003, através de uma parceria entre o Hospital Universitário Júlio Muller, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o Hospital da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), em Cascavel. Em 2004 somou-se ao projeto o Hospital do Trabalhador, em Curitiba.
Todas as segundas-feiras, as crianças internadas nestas três instituições encontram-se no mundo virtual, através de um chat (sala de bate-papo), onde trocam experiências sobre a rotina da hospitalização. Segundo uma das idealizadoras do projeto, Rosa Lúcia Ribeira, professora de enfermagem da UFMT, muitas vezes as crianças têm dificuldade de falar sobre a própria doença. ''O chat quebra isso'', afirma. Na sua avaliação, ao se depararem com situações semelhantes às suas, as crianças se soltam para contar sobre a vivência hospitalar. Além disso, a experiência lúdica do exercício como um todo contribui para a melhora dos internos. ''Com a alegria, eles esquecem da dor'', conta.
O chat é apenas uma das ferramentas do EIC-Hospitais, que têm como foco a inclusão digital. Muitas vezes, o primeiro contato das crianças com a informática ocorre através deste projeto. Este não foi o caso de Felipe Brunati, 9 anos, que já havia brincado com um computador antes de ser internado no Hospital do Trabalhador, mas foi na sala de informática da ala de pediatria que conversou pela primeira pela internet. Seus interlocutores eram crianças e adolescentes hospitalizados em outras cidades.
Os assuntos mais comuns são sobre o motivo dos internamentos. Felipe quebrou o braço em uma cama elástica, seu amigo de internamento, Gabryel Willian, 8 anos, fraturou a perna jogando bola. Segundo a responsável pelas atividades pedagógicas do Hospital do Trabalhador, Priscila Mariana, ''Na troca de experiências eles descobrem que não são só eles que estão doentes'', explica.
Na conversa de que participou, Gabryel quis saber se sua companheira internada em Cuiabá estava passando muito calor e o que havia almoçado. ''Sei que lá tem umas comidas diferentes, fiquei curioso'', diz. Seu vizinho de leito, Felipe, ficou surpreso ao ver, através de uma web-cam (câmera on-line), que também no Mato Grosso as crianças internadas usam roupas hospitalares semelhantes às dele.
Como a média de internamento é de poucos dias, dificilmente uma criança volta a participar do chat semanal. Mas quando isso acontece, alguns laços podem se estender além do mundo virtual. ''Às vezes eles fazem amizade e trocam telefones'', conta Priscila.
Além do chat, o EIC-Hospitais inclui atividades educativas e lúdicas através da informática. Com softwares pedagógicos, eles desenvolvem valores como cidadania, amizade, cooperação, respeito e auto-estima, e aprimoram seus conhecimentos em informática. Para aqueles que conseguem se locomover, o soro e a injeção são levados até a sala da informática, para os outros, que não podem sair do leito, a solução são notebooks doados pelo CDI.

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