Paulo WolfgangRenato Moriya, pediatra: ‘‘Papéis devem ser definidos e respeitados’’Casado e com duas filhas - Paula, de 8 anos, e Renata de 11 -, o médico Renato Mikio Moriya convive diariamente em seu consultório com os dramas e angústias dos pais contemporâneos. ‘‘A evolução da humanidade, da família, sofreu uma mudança muito radical e brusca nos últimos 30, 40 anos. Houve o advento da industrialização, a emancipação da mulher que foi trabalhar fora de casa. As crianças deixaram de brincar naturalmente para ter o tempo tomado por várias atividades estressantes. Isto tudo separou os pais dos filhos. Nos primeiros, a nova realidade gerou um sentimento de culpa. Nos filhos, um sentimento de abandono.’
Esta quebra da antiga estrutura familiar - ‘‘que joga estilhaços para todos os lados’’ - sofreu ainda a consequência da separação, muitas vezes geográfica, também dos avós e dos tios das crianças. ‘‘Como já disse um psicólogo, e com razão, estamos vivendo um triste tempo de filhos órfãos de pais vivos. Porque eles estão literalmente separados, sem tempo uns para os outros, ainda que vivam na mesma casa’’, ressalta o pediatra.
Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) em julho de 1982, Moriya, de lá para cá, fez vários cursos de reciclagem nas áreas de psicologia infantil e terapia da família, que estão próximas ao desempenho de suas atividades profissionais como pediatra. Atualmente, ele cursa especialização sobre adolescência na PUC de Curitiba.
Ele conta que começou a participar da ONG Vir a Ser, no projeto Pais em Paz, não só por necessidade profissional, mas principalmente porque os assuntos que tratam das relações familiares lhe proporcionam satisfação pessoal. ‘‘Nos grupos de reflexão, posso ter um enfoque diferenciado sobre o assunto que é objeto de meu trabalho, mas também encontro espaço para conhecer experiências novas, tenho uma interação com pais diferentes dos que atendo em meu consultório’’, explica Renato Moriya.
Na opinião dele, o atual modelo da família - ‘‘nucleado de forma horizontal nos pais e filhos, sem o antigo apoio de avós e tios’’ - vive um momento de profunda crise. ‘‘Antes, tínhamos uma hierarquização vertical: avós, pais, tios e sobrinhos, no caso os filhos em questão. Cada um deles tinha suas funções bem definidas, o que facilitava o relacionamento. Em consequência do sentimento de culpa dos pais - que se dizem sem tempo porque trabalham demais -, houve mudanças nas funções, nos limites da autonomia dos filhos. A autoridade paterna sumiu, houve uma liberação descabida, e os papéis se misturaram.’
O médico-pediatra avalia que estas mudanças geraram um resultado negativo, que pode ser medido pelo aumento das doenças mentais nos indivíduos e dos distúrbios sociais coletivos. ‘‘A agressividade dos adolescentes e jovens de classe média, que nas grandes cidades formam gangues para roubar e agredir pessoas indefesas, é um exemplo disto. É um grito de alerta aos pais, que têm estado mais preocupados com eles próprios do que com seus filhos’’, afirma.
De acordo com ele, hoje em dia quase todas as famílias necessitam deste tipo de orientação proposta pelos projetos de reflexão e troca de experiências do Vir a Ser. ‘‘Umas em maior grau, outras em menor; e muitas necessitam, inclusive, de algum tipo de encaminhamento psicológico, porque estão em crise mais profunda, desestruturadas, e precisam se reencontrar. A ONG é um local onde buscamos as profilaxias para as doenças individuais e para os distúrbios coletivos de nosso tempo’’, comenta o pediatra.
Mesmo lembrando que é impossível a volta da estrutura familiar ao seu antigo estágio, Renato Moriya considera necessário a retomada de alguns parâmetros e limites. ‘‘Vivemos o caos provocado pela falta de autoridade paterna, pelo excesso de permissividade, pela indefinição do que é certo ou errado, pelo fim dos limites. Com a desculpa de que os filhos devem ter liberdade, independência, os pais abandonaram seus filhos. Isto tudo é muito ruim. É urgente que retomemos alguns conceitos familiares, onde cada membro tenha suas funções e papéis bem definidos e respeitados. Hoje, os maiores problemas estão nos pais. Mas é bom não nos esquecermos que a criança cresce como um reflexo de seus pais, de sua família.’ (O.C.)

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