Somente nos seis primeiros meses deste ano foram registrados em Londrina 142 casos de violência física e sexual contra crianças, principalmente com menos de sete anos de idade. Mais da metade das agressões foram cometidas dentro da própria casa, pelos pais ou outros membros da família, responsáveis por 88 casos. As informações são do presidente do Conselho Tutelar de Londrina, Júlio Botelho, que aprova a criação de ambulatório específico para atender a crianças vítimas de violência. Dois ambulatórios, que prestarão esse serviço e também atenderão a recém-nascidos de alto risco, serão inaugurados hoje pelo prefeito Nedson Micheleti (PT) e secretário municipal de Saúde, Sílvio Fernandes, no Pronto Atendimento Infantil (PAI). Até hoje, os exames periciais estavam sendo realizados no Instituto Médico-Legal (IML).
Segundo Botelho, este ano, dos 142 casos de violência física, 73 foram cometidos pelos pais e familiares. Fora do meio familiar, 34 crianças foram espancadas. Ainda este ano, 15 crianças sofreram violência sexual de pais, de algum familiar ou pessoas que têm acesso irrestrito à casa. Também nos seis primeiros meses do ano, 20 crianças foram violadas sexualmente por estranhos. No ano passado, o Conselho Tutelar registrou 171 casos de espancamento cometidos por pais. Foram constatados 71 casos de agressão física por terceiros. Familiares, como pai, padrasto, avô e tio violentaram sexualmente 30 crianças em Londrina. Mais 26 casos de abuso sexual foram cometidos por terceiros. Esse tipo de violência atinge mais as meninas com até sete anos de idade.
Os números, segundo Botelho, não refletem a realidade, que pode ser muito mais cruel. Ele afirmou que muitos casos acontecem diariamente sem que os conselheiros consigam detectar, mas as denúncias estão mais frequentes. ''As pessoas não querem se envolver.'' Conforme Botelho, a sociedade cultiva vários tabus referentes à educação dos filhos. ''Muitos acham que o pátrio poder confere o direito ao castigo físico.''
Quando a violência acontece dentro de casa e o agressor é o provedor da família, fica ainda mais difícil comprovar a violência, disse Botelho. Dependentes financeiramente, os demais membros da família presenciam, mas não tomam nenhuma providência. O tipo de violência física mais comum é a surra com fivela de cinto, corrente, corda, cabo de vassoura e queimaduras com óleo quente e cigarro.
Engana-se, afirmou Botelho, quem pensa que a violência é mais frequente nas classes menos favorecidas. O fato acontece igualmente nas famílias de classe baixa, média e alta, lamentou. Entretanto, a maior parte das denúncias vem das famílias pobres. Botelho explicou que a pouca privacidade, em função de as casas serem muito próximas nesse bairros, leva os vizinhos a ouvirem e denunciarem às autoridades. Em bairros nobres, muitas vezes o fato acontece sem que ninguém perceba.
As crianças somente voltam para casa se o Conselho comprovar que ela não corre mais perigo e sem a presença do agressor. Quando não há possibilidade de retorno e nenhum familiar quer assumir, explicou o conselheiro, as crianças são encaminhadas para um dos quatro abrigos da cidade. ''Ela é penalizada duas vezes, pela agressão e pela falta da família. Viram filhos do Estado'', observou. Botelho vê com bons olhos a inauguração de ambulatório que pode emitir laudo pericial para comprovar a violência contra a criança. ''Era uma reivindicação nossa.''
O diretor do PAI, Jonilson Favareto, afirmou que os ambulatórios não podem ser vistos como um serviço isolado, mas sim, integrado dentro de várias medidas que a Secretaria de Saúde está empreendendo para combater a mortalidade infantil. ''Estamos fechando o cerco da mortalidade infantil'', assegurou. Os ambulatórios para recém-nascidos, que não vão comportar internamento, devem atender durante duas vezes por semana uma média de 30 a 40 bebês de alto risco com consultas pré-agendadas. Duas pediatras neonatais estarão monitorando os bebês que tiveram alta de UTIs e necessitem de acompanhamento específico. O Conselho Tutelar encaminhará as crianças vitimizadas durante todos os dias da semana.
Serviço: Conselho Tutelar (43 - 321-6748), Rua Benjamin Constant, 800. Ambulatórios do PAI (43 - 336-0202)

mockup