Crianças estariam mendigando
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de junho de 1998
Guilherme Vieira 
Uma rede de sequestradores de crianças pode estar atuando em Curitiba e fazendo funcionar uma indústria da mendicância. As crianças desaparecidas estariam sendo utilizadas em Curitiba e na Região Metropolitana por agenciadores para pedir esmolas nas ruas, fornecendo dinheiro fácil para corruptores. A suspeita é do delegado do Serviço de Investigações de Crianças Desaparecidas (Sicride), Harry Carlos Herbert, que informou ontem que pretende responsabilizar os sequestradores criminalmente, e também os pais dessas crianças por abandono material e intelectual. Esses casos de desaparecimento são muito estranhos, e acreditamos que alguns acontecem por causa de negligência dos pais, disse Herbert se referindo ao desaparecimento da menina Tatiana Alves dos Santos, 6 anos, no sábado, e de sua irmã Fabiana Alves dos Santos, 4 anos, que sumiu na tarde de 29 de agosto de 1996. Elas sumiram nas mesmas circunstâncias, enquanto brincavam na frente de casa na Rua Padre Isaías de Andrade, na favela do Parolin.
Os pais das meninas, o catador de papéis Gilson Lourenço dos Santos, 26 anos, e a doméstica Rosângela Aparecida Alves, 23 anos, passaram toda a semana percorrendo a cidade atrás de notícias das filhas. A rua estava cheia de gente, mas todo mundo diz que não viu nada, reclama Lourenço dos Santos. O catador de papel está revoltado com a possibilidade de ser processado pelo delegado do Sicride. É um absurdo um inquérito contra nós, disse. Eu queria saber o motivo do processo se nós somos as vítimas.
A mãe das crianças que desapareceram acredita que tenha sido a mesma pessoa que levou as duas meninas. A gente acaba sofrendo tudo de novo, lamentou, referindo-se à primeira filha desaparecida. Rosângela disse que não sabe o que fazer para achar as meninas e pediu ajuda à polícia e ao secretário de Segurança do Estado, Rubens Tanure. Segundo informações de vizinhos da família, Léo Marcio da Silva e Marlene Viana do Nascimento, as suspeitas recaem sobre uma ex-colega de trabalho de Gilson, chamada Maria.
O Sicride vem tentando localizar Maria há cerca de dois anos, época do desaparecimento da primeira criança, mas enfrenta dificuldades. Essas pessoas que trabalham com reciclagem de papelão não possuem registro profissional e não têm vínculos. Elas acabam se transferindo de cidade com muita facilidade atrapalhando as investigações, disse o delegado Herbert.


